Thursday, September 15, 2022

 


I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour, Ankou, Sedna, Aita as in different mythologies. I really wanted a very Brazilian name, those like Josefa Silva, that made me feel sympathy for her, and not fear. Neither fear nor respect, because I didn't want to respect something that would take me from here to a magical world I didn't believe in, and therefore I didn't know anything about. I wanted a human name. A prosaic name: Seraphine. And Seraphine should be colorful too: no black veils wrapped around her thin body, bony hands gripping a tall scythe to pull me by the neck at departure as if I were a runaway chicken. Seraphine would be fat, chubby hands, red cheeks (from laughing), round brown eyes and a pointy caramel nose. Seraphine would wear a purple top hat, a long flame orange dress, moss green suede shoes. I would see her far away when she came to get me. There, I didn't have to fear a real, colorful person named Seraphine, who would come to meet me one day and take me out of here. I'd recognize her in a heartbeat, and I wouldn't have time to try to change her mind: Seraphine would be too charming for me not to want to go with her. The lively laugh, the warm colors, the seductive brown eyes. Seraphine would make me feel good.

I spent years waiting for Seraphine. At every corner, at every street crossed, at every sip of coffee sipped more willingly. With each orange cloth that passed before my eyes, a chill crept up my spine. I pressed my gaze for the other elements that would make Seraphine evident, but she was never there. Every loud, naked laugh, every fat hand full of creases, every green shoe. Seraphine has become the prince charming I've been waiting for every day. I couldn't work anymore, I couldn't live the joys of my days anymore. I didn't want to cross the streets anymore. I didn't want to sip my coffee anymore. Why didn't Seraphine want me? I shaped her, I created her, and she didn't want me. Every day she came to get someone; someone who happened to see her and hear her laugh, someone who felt the delicacy of her orange dress. But not me. Seraphine didn't want me. Tired of waiting for Seraphine, I went down to the main street. I waited to cross. As soon as I saw the bus around the corner, I crossed over so it couldn't stop. He didn't stop. I left. And still Seraphine didn't come to see me.

 

Thursday, March 24, 2022

Ela

 Ela nem sabe que eu escrevo. Ela não sabe dos meus contos, ela nunca soube das minhas redações nas aulas de português. Ela nunca soube como eu gosto de encontrar e agrupar as palavras formando crônicas e contando causos verídicos e inventados, a maioria para fazer alguém rir. Ela nunca se interessou por ler meu blog. Acho que ela nem mesmo sabe que eu mantenho um. Nunca soube das minhas notas altas em redação em concursos - e até mesmo naquela primeira fase passada na Unicamp, que nem eu mesma acreditei, visto que não estudava nada. Certeza que foi a culpa da redação. Uma narrativa que preencheu todas as folhas disponíveis e me custou todos os minutos dados para a prova. Fui uma das últimas a entregar; fato raro na minha vida de ansiosa.

Justo ela, que se diz leitora. Ela que parou de ler quando a vista não mais ajudava e se sentiu muito mal por isso, e que tanto se encheu de felicidade quando enfim conseguiu uma cirurgia e novas lentes que a fizeram recobrar a capacidade da leitura de letras miúdas. Ela, que tanto se interessa pela vida de todo mundo. Ela, tão preocupada com os problemas, com os anseios, com as conquistas das pessoas ao redor da vida dela.

Ela, que escrevia toneladas de cartas e nos fazia ler.

No mundo dela, a vida se resume a leituras diárias. Leituras de todos os tipos de textos que se pode imaginar: curtos, grossos, longos, corretos, mal-educados, sem pontuação. E elas os lê. Todos. Menos os meus. Porque ela não sabe que eu os escrevo, e ela não se interessa por saber disso. 

Wednesday, March 23, 2022

Quando eu achei que estava dando uma de esperta no Lago Titicaca

 

Eu já saí de La Paz passando mal por conta da altitude: 4100 metros acima do nível do mar me deixaram extremamente fadigada. Não tive enjoo como muita gente tem, nem dor de cabeça e falta de ar. Acordava durante a noite e logo voltava a dormir, mas me faça andar naquele lugar para você ver o quanto eu aguento nos primeiros dias com mal de altitude...

De La Paz pegamos o ônibus que vai a Copacabana. A viagem dura 4 horas e é recheada de paisagens lindas. Já em Copacabana, pegamos o barquinho que vai a Isla del Sol, que dura 1 hora de viagem até então tranquila.

Bom, nós escolhemos ficar na Pousada Pallakhasa depois de ler alguns blogs na internet indicando as melhores hospedagens na ilha. Escolhemos esse devido a um post bem bacana de uma garota que dizia que lá tinha a vista mais linda do Titicaca (e ela tinha razão), e que o chato era que a pousada ficava um pouco longe: meia hora de caminhada pós desembarque no “portinho” da ilha. Ora, meia hora para mim era tranquilo de andar. Só que eu já não levei meia hora. Lembra que falei que eu estava extremamente fadigada? Então. Levei uma hora e meia. UMA HORA E MEIA andando, subindo degraus, parando, respirando, voltando a andar dois metros, parando, respirando. Minha irmã fumante ia lá na frente, de boas, me atiçando “vamos Guididiiiiii!”, e eu morrendo. Uma hora e meia depois chegamos. Na pousada fomos recebidos com chá de folhas de coca e com o visual mais lindo dessa terra: o azul magnífico do lago.


Sentamos nos bancos do terracinho e apreciamos o chá e a vista. Guardamos nossos pertences no quarto e voltamos para fora. Conversamos com os donos da pousada, que nos disseram que poderíamos fazer a caminhada para a outra ponta da ilha para vermos as ruínas incas que lá se encontravam. Perguntei logo “mas quanto tempo dura essa caminhada?”, e eles me responderam que seriam duas horas para ir mais duas horas para voltar. A bonita aqui ainda considerou. Falei com meus companheiros de viagem e todos concordaram em ir até lá. Mochila com água e bolacha nas costas, começamos nossa peregrinação em busca das ruínas incas. Andamos uns 10 minutos e passamos pelo “pedágio” que a comunidade pede aos viajantes para adentrarem aquela área. 


Pagamos e continuamos por mais 10 minutos. Aí eu parei para respirar e descansar, e foi então que eu tive um tipo de esclarecimento: para quem que eu queria me mostrar? O que que eu estava querendo provar indo fazer uma caminhada de 4 horas sendo que eu sabia que eu não iria aguentar nem a metade dela? Pra que que eu estava inventando aquela merda toda? Virei para meus companheiros e falei:

- Gente, não sei por que inventei isso, mas eu não vou dar conta de fazer essa caminhada não...

Eles aquiesceram na hora: todo mundo falando que só estava caminhando porque eu havia proposto aquela ideia imbecil, mas que todo mundo estava cansado querendo só apreciar o visual da varanda da pousada.

Voltamos pelo mesmo caminho. O pessoal da comunidade indígena do “pedágio” começou a rir quando nos viu voltando. Perguntaram se tínhamos desistido. “Óbvio que sim”, me deu vontade de responder. Chegamos de volta à pousada e os donos também vieram perguntar o que havia acontecido. Olha, vou dizer a vocês: não me senti nem um pouco mal contando a verdade. FOI PORQUE EU TIVE UMA IDÉIA DE JERICO, só isso. Olha pra minha cara; todo mundo sabe que eu JAMAIS conseguiria transpor aquela caminhada em duas horas. Eles começaram a rir e disseram que um grupo de italianos havia saído cedo da pousada para o mesmo trajeto e que ainda não haviam retornado, então eu fui prudente em voltar porque já eram umas quatro da tarde e pegaríamos muito frio na volta.

Sentamos de novo na varanda e esperamos. Quando já eram umas cinco da tarde, o grupo italiano chegou da caminhada. Começamos a conversar e adivinhem? Os italianos levaram SETE HORAS para ir e voltar do passeio. Três horas e meia por trajeto. Quanto tempo vocês acham que EU iria levar se tivesse continuado com a maluquice?? Umas 10 horas pelo menos. Ou seja: iríamos passar a madrugada ou andando ou jogados nalgum canto no meio das árvores, morrendo de frio se me conheço bem. Ainda bem que não fomos.

O dono da pousada então veio com uma idéia mirabolante de como poderíamos ver as ruínas sem andar aquilo tudo: ele recomendava um passeio de barco dali onde estávamos até a outra ponta da ilha. Daí, segundo ele, seria mais rápido, teríamos que subir algumas escadas lá na ponta da ilha e pronto, veríamos as ruínas.

Tcharam!! A salvação!! Veríamos as ruínas sem andar muito! Me achei super esperta e queria rir dos italianos nessa hora.

O único problema seria acordar muito cedo no dia seguinte.

 

Na verdade, esse não foi nem de longe um problema: a vista do céu estrelado começando a amanhecer só me mostrou o quão mais linda aquela vista da pousada poderia ficar. 



Um dos primeiros problemas se mostrou logo após o “acordar muito cedo”: a descida até o portinho da pousada. Era uma baita de uma descida íngreme e eu quase chorei quando vi o que teria que descer. Aquele medo latente de cair e sair rolando por entre meus amigos e o guia e a vergonha de ter que terminar o passeio depois de quebrar uma perna ou um braço fizeram meu desespero aguçar e eu saí toda troncha. Fotografei a descida toda tremendo. Praticamente todas as fotos saíram ruins. Depois de meia hora descendo, escorregando, galopando, chegamos ao barquinho.

Aí veio o segundo problema: o lago Titicaca estava bravo (provavelmente porque nós cortamos caminho por ele e não seguimos a trilha oficial das ruínas) e nos castigou com muitas batidas de água no nosso barquinho. Ainda bem que de cara eu já tinha tomado um plasil e estava com o estômago no lugar, porque foi feio. Aquele barquinho balançou tanto, minha gente, que resolvi, de novo, mostrar que poderia acalmar meus companheiros (quando eu mesma estava apavorada). Virei para o guia que pilotava o barquinho e falei:

- É normal essas batidas, né? Digo, o lago estar bravo assim?

Ele, com cara de assustado, respondeu:

- Não é normal não, não sei por que está assim hoje.

Já saí logo distribuindo plasil para todo mundo. Queria mesmo era distribuir santinhos com orações, mas não tinha nenhum ali. Fiquei foi indignada com o menino. Acho que ele poderia ter nos acalmado com um simples “sim, é super normal” enquanto puxava seu tercinho para rezar. Mas não, preferiu me deixar com mais medo.

Enfim chegamos à ponta da ilha e subimos as escadarias para ver as ruínas. Nada de mais (nessa hora eu já nem estava mais curtindo o passeio), olhamos, xingamos os Incas (porque essa mania de construir cidade tudo nas alturas??? Pelamor, né?), descemos e voltamos para o barquinho da morte. Dessa vez a volta seria mais rápida porque pararíamos num outro portinho, onde uma van nos esperava para nos levar de volta a Copacabana.




Daí veio o terceiro problema. A van estava já com os italianos todos da pousada esperando por nós. Sentamos nos primeiros bancos e o guia foi na frente com o motorista. Eis que estávamos subindo um trecho bem estreito de estrada (de um lado montanha e do outro lado penhasco, bem típico nessa região da Bolívia), quando um dos meus amigos grita:

- Esqueci minha câmera no barquinho!!

Motorista parou a van e começou a fazer uma manobra de 180º para voltarmos ao portinho. O problema é: vocês lembram que eu disse que a estradinha era estreita, não é? Pois bem. Aquele motorista suicida começou a dar ré na van bem no lado do penhasco. Sabe aqueles filmes ou vídeos que vemos “estradas mortais”? Ou “estradas mais perigosas do mundo”? Parecia que eu estava em um desses. O motorista deu tanta ré que achamos que íamos cair no penhasco. Começamos a falar um “stop” gentil para ele e no fim estávamos como que em um filme de terror berrando “STOOOOP!!!”. Ele parou, olhou pra gente como se nós que fôssemos doidos. Eu, do banco do meio da van, já estava vendo as lhamas lá embaixo do penhasco. Imagino o que os italianos (sentados lá no fundão) estavam vendo já. Acho que estavam vendo Jesus, com aquela luz por trás, chamando “venham, filhos”.

Por fim o motorista parou a ré mortal, voltou a van nos trilhos e nos levou de volta ao portinho. Meu amigo pegou sua câmera e seguimos o restante da viagem normalmente até Copacabana.

Saturday, October 03, 2020

Serafina

 Eu queria um nome bonito para a morte. Mas eu queria um nome simples, fácil, comum. Não queria chamá-la de Dona Morte. Morte, A Hora, Ankou, Sedna, Aita como em diferentes mitologias. Eu queria um nome bem abrasileirado mesmo, daqueles bem Josefa do Amaral Silva, que me fizessem ter simpatia pela dita, e não medo. Nem medo e nem respeito, porque eu não queria respeitar algo que me levaria daqui pra sempre para um mundo do qual eu não acreditava, e, portanto, não sabia nada a respeito. Queria um nome de gente. Um nome prosaico: Serafina. E Serafina também deveria ser colorida: nada de véus pretos enrolados pelo corpo magro, mãos ossudas segurando uma foice alta para me puxar pelo pescoço na hora da partida como se eu fosse uma galinha fugitiva. Serafina seria gorda, mãos cheias de dobrinhas, bochechas vermelhas de tanto dar risada, olhos castanhos redondos e nariz caramelo pontudo. Serafina usaria um chapéu alto roxo, um vestido longo laranja fogo, sapatos de camurça verde musgo. Eu a enxergaria bem de longe quando ela viesse me buscar. Pronto, eu não precisava temer uma pessoa real, colorida, chamada Serafina, que viria algum dia ao meu encontro e me tiraria daqui. Eu a reconheceria num piscar de olhos, e não teria tempo de tentar fazê-la mudar de idéia: Serafina seria encantadora demais para que eu não quisesse acompanhá-la. A risada viva, as cores quentes, os olhos castanhos sedutores. Serafina faria com que eu me sentisse bem.

Passei anos esperando Serafina. A cada esquina, a cada rua atravessada, a cada gole de café sorvido com mais vontade. A cada tecido cor de laranja que passava diante dos meus olhos, um frio se alastrava pela minha espinha. Eu pressionava o olhar em busca dos outros elementos que evidenciariam Serafina, mas ela nunca estava lá. A cada risada alta e nua, a cada mão gorda cheia de dobrinhas, a cada sapato de camurça verde musgo. Serafina se tornou o príncipe encantado que eu esperava todos os dias. Eu não conseguia mais trabalhar, não conseguia mais viver as alegrias dos meus dias. Não queria mais atravessar as ruas. Não queria mais sorver goles de café. Porque Serafina não me queria? Eu a moldei, eu a criei, e ela não me queria. Todos os dias ela vinha buscar alguém; alguém que passava a vê-la e a ouvir sua risada, alguém que sentia a delicadeza de seu vestido laranja. Mas não eu. Serafina não me queria. Cansada de esperar Serafina, desci até a rua principal. Esperei para atravessar. Assim que avistei o ônibus virando a esquina, atravessei, de modo que ele não conseguisse parar. Ele não parou. Eu parti. E ainda assim Serafina não veio me ver.

Thursday, July 02, 2020

Uma história de amor

Eu estava na sexta ou na sétima série, tinha entre 12 e 13 anos. De vez em quando a professora de português nos pedia para que fizéssemos uma redação para ser lida em voz alta na sala de aula. Eu gostava disso, porque era o momento em que eu abria minha criatividade e escrevia crônicas cômicas que eram apreciadas pelos outros alunos – e pela professora em questão (embora minhas notas não fossem as melhores). Assim que a professora anunciava meu nome para a leitura do meu texto, os demais alunos se viravam ansiosos, me olhando e esperando que eu começasse a diverti-los.  E eu lia minha redação com a melhor entonação cabível ao tema proposto, e logo os outros alunos explodiam em risadas e alvoroços. No final da leitura, a professora sempre fazia uma avaliação boa sobre minha criatividade, mas em seguida complementava com alguma correção de falhas que ela havia percebido na minha escrita. Não me importava; gostava mesmo de escrever coisas bestas e adorava notar como eu conseguia divertir os colegas de sala.
Uma vez, em época de dia dos namorados, a professora começou a pedir uma nova redação para a classe, e antes que eu pudesse ficar animada, ela disse:
- O tema da redação será o dia dos namorados!
Aquele balde de água fria nos meus ânimos... Eu não conseguia ser uma menininha romântica, eu era cômica. Levantei a mão:
- Professora, mas não precisa necessariamente ser uma redação sobre romance, precisa?
- Claro que sim, Ingrid – respondeu ela. – Eu quero que vocês escrevam sobre o primeiro encontro de um casal qualquer.
- Poxa, mas eu não sei escrever histórias de amor...
- Tente, será um bom desafio para você. Quem sabe dessa vez escutemos uma redação séria da sua parte.
A classe riu, ela também, mas eu não. Eu realmente não tinha a mínima vontade de escrever uma história de amor. O que seria engraçado em uma história de amor? (Me dê um desconto: eu era uma criança, não sabia que o amor é uma das coisas mais engraçadas que existem no mundo...).
Os dias foram passando e eu ainda não tinha nem começado a minha redação. Pensei em várias formas de escrever um conto onde um casalzinho feliz pudesse ser ridicularizado pela minha caneta, mas não conseguia chegar a algum roteiro que não fosse demasiado... chato. E era isso que histórias de amor se pareciam para mim: chatas.
No último dia antes da aula de português, onde eu teria que ler meu trabalho, peguei uma folha de caderno e um lápis e comecei algo que parecia assim (são mais de 30 anos, meu amigo, não vou me lembrar exatamente como eu escrevi):

“Angelina entrou pela sala escura fechando todas as cortinas, para evitar que a luz remanescente do sol penetrasse pelas frestas. Ela tinha acordado há pouco, mas seus tios ainda dormiam. Eram já seis horas de uma tarde de outono, e o sol parecia estar demorando mais do que o normal para se esconder por inteiro. Ela era uma vampira moça que ainda não tinha total conhecimento de seus poderes, e enquanto não podia usá-los da forma que bem entendesse, tinha aulas regulares com sua tia Gala durante o comecinho da noite. Elas se reuniam na sala de estar do imenso casarão em que viviam, e ficavam por algumas horas estudando a História da Transilvânia, mais precisamente sobre Vlad, o Empalador. Tia Gala havia dito que quando terminassem de estudar história, elas passariam a estudar Biologia e Anatomia Humana, para que ela soubesse tudo sobre o corpo humano e soubesse exatamente onde ela deveria morder para ter um fluxo bom e contínuo de sangue da sua vítima. Angelina sabia de vários casos de amigos vampiros que mordiam errado, e acabavam liberando um fluxo gigantesco de sangue das vítimas pelos ares, sujando todo o ambiente de uma vez só e não conseguindo beber quase nem uma gota de sangue sequer. Tia Gala dizia que sangue não podia ser desperdiçado daquela maneira.
Mas essa noite não haveria aula. Tia Gala e tio Minu achavam que Angelina já estava adulta o suficiente para conhecer um vampiro e se casar. Como era costume entre os vampiros, tio Minu arrumou um encontro entre ela e um vampiro amigo que ele conhecia desde quando ele morou no México, lá pelo século XII. 
Angelina se sentou no sofá de camurça encardida e ficou imaginando porque um vampiro da idade do tio dela ainda estaria solteiro naquela época. Ele deveria ter mais de mil anos, e Angelina não conhecia um vampiro dessa idade que ainda fosse solteiro. Olhou para a mesinha de centro e arrumou as taças. Tia Gala havia preparado os mais variados petiscos preferidos de Angelina para que eles saboreassem juntos: olhos de hiena ao molho pardo cru, torradas com patê de sangue de cobra, insetos marinados no leite de morcega e baratinhas fritas. Para beber, sangue pisado de bichinhos mortos da estrada. Estava absorta quando ouviu o barulho de um burro gritando. Era a campainha tocando (seu tio Minu tinha mania de colocar sons bizarros em campainhas, buzina do carro, despertador. O som do telefone tocando era um bode rindo). Ela se levantou de um solavanco e bateu a cabeça no castiçal pendurado na parede atrás do sofá. Deu um grito, soltando um palavrão, e colocou a mão na cabeça, sentindo o sangue escorrer. O burro gritou de novo, e ela correu até a porta e a abriu. Do lado de fora estava o vampiro mais charmoso que ela já vira em sua vida: alto, pálido como a morte, cabelos negros que pareciam ter sido lambidos por uma vaca e olhos penetrantes como os de um defunto velho. Angelina sorriu timidamente, e falou:
- Boa noite!
O vampiro olhou para a porta e para os lados, como se buscasse uma confirmação de estar no endereço correto:
- Me desculpe – disse ele – mas aqui é a casa do Minu, não?
- Sim, é sim! – respondeu Angelina, sorrindo – Por favor, entre!
- Você é a Angelina??
- Sou sim!!
- Muito prazer, você é muito bonita. Eu sou Francis Fátuo.
O vampiro entrou, e quando passou por ela, Angelina pode sentir seu perfume fresco de esterco. Devia ser daqueles vampiros naturebas que dormiam em covas na floresta.
Ela apontou o sofá, para que ele se sentasse. 
- Eu sinto cheiro de sangue coagulado - disse ele, apertando as narinas como se fosse um cachorro. - Tem algum humano sangrando por aqui??
Angelina sorriu:
- Não, é meu sangue. Eu bati a cabeça no castiçal e me machuquei.
- Ahh. Foi você quem gritou um palavrão?
Angelina arregalou os olhos:
- Caramba, você ouviu?
O vampiro suspirou:
- Ouvi. Tenho ouvidos de águia, escuto tudo.
Angelina franziu o cenho e teve vontade de corrigi-lo dizendo "ouvidos de tuberculoso ou olhos de águia", mas não o fez. Ele se sentou no sofá encardido e ela o acompanhou.
- Seu tio me disse que você está buscando um marido... - começou ele.
- Hum, estou sim. 
- E eu poderia ser seu marido?
Angelina coçou o queixo e se serviu de um olho de hiena. Mordeu com tanta força que ele escorregou e acabou sendo atirado pra fora da sua boca. Francis acompanhou a trajetória da comida escapando e fez cara de nojo:
- Caramba, como você é porca! - disse ele, sorrindo. - Que sexy!!
Angelina sorriu, baixando os olhos:
- Obrigada!
Pegou outro olho e o engoliu sem mastigar. Chupou os dentes estralando a língua e respondeu:
Então, senhor Francis... eu gostei muito do senhor. Claro que poderia ser meu marido!
- Ótimo - respondeu Francis. - Vamos agendar a data do nosso casamento então para o próximo Halloween!! Eu não cuido de nada e você prepara tudo, pode ser assim?
Angelina ficou extasiada com a praticidade de Francis:
- Lógico que sim!! Adorei!!
Francis tomou sua mão, deu uma mordidinha de leve arrancando um pouco de sangue (que chupou), levantou-se e foi embora.
Angelina, feliz, rodopiou pela sala e tropeçou no tapete de urso carcomido. Caiu no chão e lascou o canino direito. 
Levantou-se rápido, esticou o vestido e chamou tia Gala para contar que estava noiva. E também para pedir logo o restante das aulas de História da Transilvânia: precisava terminar os estudos antes do casamento, para depois se dedicar a ser a ser a esposa perfeita."

Quando terminei de ler, olhei para os alunos e para a professora. Eles não pareciam ter se divertido como nos outros contos (algumas meninas pareciam meio enojadas), e a professora me olhava com desdém. 
- É, dona Ingrid - disse ela. - Foi uma redação estranha. Mas devo admitir que você cumpriu o que eu pedi. Sua nota é 8.
Fiquei feliz e me senti realizada. Era um dos poucos momentos em minha vida em que eu me mostrava totalmente rebelde: fiz o que ela havia pedido mas da maneira como eu quis. 
Tudo bem que os meus colegas de sala não riram tanto como das outras vezes, mas não tinha problema. Na próxima redação, eu contaria uma história de alguém peidando alto em um ônibus. Peidos sempre arrancavam boas risadas.

Tuesday, June 30, 2020

Visita na Torre



Vamos concordar que uma torre de controle desperta a curiosidade de várias pessoas, não? Eu mesma nunca havia entrado em uma antes de fazer o curso de controle de tráfego aéreo, mas sempre que meu pai me levava a Viracopos aos domingos, ele apontava pra torrinha pintada de um quadriculado laranja e branco e falava:
- Olha, ali é que fica o controlador de voo! Ele que controla toda a movimentação dos aviões aqui!
E eu ficava olhando a torrinha, imaginando como seria lá dentro. Mas nunca imaginei que meu pai poderia, naquela época, ter tentado contato com o pessoal da Infraero e tentado uma visita pra gente.
Depois de muitos anos, já trabalhando em Guarulhos, vi o tanto de gente que visita a torre. São entusiastas da aviação, estudantes do ramo, tripulação ou funcionários de companhias aéreas. Normalmente eu não me irritava com as visitas não, pelo contrário. Gostava de ver aquele tanto de gente observando meu trabalho, me sentia importante. Nunca me senti diferente por causa disso... diferente aqui eu digo em uma conotação um pouco bizarra: nunca me senti um animalzinho estranho sendo observado numa jaula de zoológico, por exemplo.
Mas depois eu soube que alguns controladores se sentiam dessa forma. Alguns colegas mais próximos relataram que não gostavam das visitas porque se sentiam observados de uma maneira atípica, como se fossem bichinhos exóticos.
Já teve vezes em que eu me irritei com visita sim. Uma vez veio uma família, e um garoto de uns 8 anos subiu no pé giratório da cadeira em que eu estava sentada, e ficou meio que pendurado atrás de mim se balançando. Eu não abri a boca, continuei trabalhando e fingindo que o menino não estava imitando um macaco mudo atrás de mim. Depois de um tempo apenas foi que a mãe dele percebeu que ele deveria estar me incomodando e pediu para que ele parasse de me balançar. Ele desceu da cadeira ressabiado. E eu continuei calada e trabalhando normalmente.
Eu estava na torre no dia em que a Ana Maria Braga foi nos visitar. Ficamos todos alvoroçados na cabine, todo mundo querendo saber se o Louro José viria junto. Claro que eu queria o Louro José do programa, um papagaio de espuma gigante voando pela torre, parando na mesa do supervisor e falando besteira pra gente com aquela voz característica dele. Não queria vê-lo como um baita fantoche na mão de um ser humano fazendo a vozinha dele. De qualquer maneira, ele não veio. Chegou apenas a Ana Maria com a equipe de filmagem da Globo. Ela ficou surpresa de ver o tanto de mulher trabalhando como controladoras e falou diretamente com a gente.
Equipes de televisão e revista também causavam furor na torre. Para o bem e para o mal. Os controladores que gostavam de aparecer num cantinho qualquer de um programa de televisão (como eu), logo se empolgavam com a notícia das visitas. Os que se sentiam os bichinhos exóticos ou os que apenas não gostavam dessa divulgação de imagem, logo se aborreciam. (Confesso que a maioria fazia festa: pessoal vinha tudo bem vestido, de banho tomado e cabelo aprumado pras câmeras). Minha primeira aparição na tv foi em um telejornal da TV Bandeirantes. Não me lembro o teor da reportagem, mas eles gostaram de me filmar dando uma instrução para o Air Canada em inglês e depois ficaram pedindo para que eu gravasse o áudio da instrução de novo, para colocá-lo depois da edição com a imagem. E eu fiquei lá, fingindo dar a mesma instrução umas quatro vezes seguidas para que eles gravassem. Depois, quando vi a reportagem, vi que eles apenas mostraram a imagem da minha pessoa bem rápido, sem áudio algum, e cortaram logo para a imagem do Air Canada se movimentando no pátio. Foi quando imaginei que talvez meu inglês aprendido com dona Neusa não causasse um impacto positivo numa reportagem (talvez por isso mesmo o repórter tenha pedido para eu gravar tantas vezes seguidas, e ainda assim provavelmente não tenha conseguido aproveitar nenhum take).
Também tive meu momento maquiadora, quando a revista Veja SP foi nos visitar para fazer uma reportagem a respeito da nossa profissão. Eles pediram para que o controlador mais antigo da torre desse a entrevista para a revista, e tiraram algumas fotos dele. Porém, nosso controlador era calvo, e em todas as fotos a careca dele refletia a iluminação do flash e atrapalhava. Assim sendo, o pessoal da produção pediu se alguma das mulheres tinha pó compacto na bolsa para que eles ajeitassem o problema. Eu tinha, e me ofereci para “cobrir” o brilho da careca do meu colega. Fui passando o pó e ele desesperado gritando:
- Não me deixe com cara de maquiado não!!! Não me deixe cheio de pó!
Mas ficou bem sutil e ajudou a dispersar a luz do flash.
A foto dele foi capa da revista. A Veja não me mencionou como maquiadora exclusiva... Só me chateio de lembrar que eu nunca guardei uma cópia dela pra mim.
E era assim. Num dia era uma família esperando um voo, noutro dia uma equipe de gravação, no outro estudantes de gastronomia. Nada me afetava negativamente, pelo contrário. O único dia que talvez eu tenha me sentido mais próximo de algo como um bichinho enjaulado foi quando recebemos um grupo de umas 15 pessoas, e um controlador mais antigo, ao vê-los rodeando a gente com olhares curiosos, falou alto:
- Por favor, não alimentem os controladores!!!

Sunday, June 28, 2020

Guididi versus o sexo masculino como vital

Muitas pessoas me perguntam se eu não sinto falta de um homem na minha vida. Eu sempre respondo, nessas ocasiões, um "sim, sinto. Quando aparece uma barata em casa eu surto, e nessa hora gostaria de ter um homem ali para matá-la". E não é mentira. A verdade é que não precisa ser um homem exatamente pra matar a barata; eu posso ter uma vizinha corajosa ou uma amiga a postos. Baratas me carregam de um pavor inexplicável e instantâneo.
Mas fora o fato das baratas, não consigo sinceramente pensar em outra razão pela qual eu PRECISE de um homem na minha vida.
Não estou sendo feminista e muito menos auto-suficiente. Também não bato na tecla irritante de que "todos os homens são iguais" ou "homem não presta pra nada". Não é nada disso. Gosto de homens; dos meus melhores e amados amigos, a maioria é homem. Apenas não acho que PRECISO de um homem pra minha vida ser completa como muitos pensam, só isso. Minha vida foi marcada por eventos que me levaram a essa independência, mesmo contra a minha vontade.
Quando eu era pequena, vivi - junto a minhas irmãs e minha mãe - momentos de terror na minha casa. Meu pai era esquizofrênico, e durante os surtos psicóticos que ele passava, ficava muito violento. Meu pai não era um homem corpulento e forte, mas nesses momentos (horas, dias na verdade) de surto, ele tinha uma força que nem 5 homens conseguiam dominar. Imagine essa força toda voltada para agredir minha mãe e para nos ameaçar a cada sermão bíblico que ele nos dava. Sim, porque as passagens bíblicas que ele mais gostava eram aquelas que contavam de pais matando os próprios filhos. Ouvíamos as passagens completamente aterrorizadas, imaginando o que viria a seguir. Quando ele conseguia pensar com mais malignidade, escondia uma faca de cozinha em algum lugar da sua roupa, e a revelava nalgum trecho mais oportuno do sermão, aumentando nosso terror. Todas essas vezes nós estávamos sozinhas, quatro pessoas femininas: uma mulher e três criancinhas. Por vezes estávamos apenas três; minha irmã caçula era escondida por minha mãe na casa de alguma vizinha - normalmente dona Mafalda, mulher forte e que parecia não ter medo do meu pai. Ela não entrava em nossa casa pra nos defender, mesmo por não conhecer totalmente a mente doente dele. Mas estava sempre a postos pra esconder minha irmã, e eventualmente minha mãe. Nessas horas éramos apenas eu e a Renata à mercê do louco.
Por muitas vezes eu desejei ter um irmão mais velho. Achava que uma figura masculina em casa nos salvaria, mostraria ao meu pai que ele não poderia nos ferir e agredir minha mãe. Porque meu próprio pai nos ensinou - e nos mostrou - que homem tem muita força física, enquanto nós mulheres temos o corpo frágil e nunca conseguiríamos dominá-lo.
Mas a figura masculina não existia ali, e os poucos homens a quem minha mãe gritou por socorro, nos abandonavam. Diziam não ser problema deles e que eles não poderiam fazer nada pra nos ajudar. Nos largavam lá, aterrorizadas, minha mãe sendo agredida fisicamente. Uma vez veio um tio - conversou com meu pai mas não conseguiu acalmá-lo. Quando tentou contê-lo fisicamente, não deu conta sozinho. E foi o máximo que conseguimos de ajuda dele. Os homens só ajudavam mesmo quando eram os meninos da guarda municipal que chegavam para ajudar a segurar meu pai e colocá-lo na ambulância com destino ao pronto socorro e futuramente uma internação em um hospital psiquiátrico. O problema eram as horas, os dias que se passavam até que conseguíssemos correr e achar um telefone para ligar no 192 e solicitar uma ambulância, sempre acompanhada do pedido "tragam a polícia junto porque ele está extremamente agressivo". Aí depois de alguns minutos chegava a caravan branca do pronto socorro, munida de um motorista e um enfermeiro homem, seguida pelo carro da guarda com alguns rapazes. E era a imagem que eu gravei: cinco homens, quatro homens, três homens e uma camisa de força para conter a fúria e a força do esquizofrênico. Antes desse mini exército, eram 4 mulheres franzinas que ficavam sob a mira daquelas mãos pesadas. Não, nunca teve um homem para nos salvar nos momentos de terror. Nunca teve um homem pra abraçar a gente e dizer "calma, vai dar tudo certo". Também não queria um irmão homem para segurar meu pai durante os ataques - porque sei que um homem sozinho não conseguiria. Mas é fato que meu pai abrandava a agressividade quando tinha algum homem perto. Parece que mesmo durante  o surto ele sabia distinguir quando ser machão e quando ser mais contido. Ele sabia que um homem tinha mais força que a gente e poderia ao menos tentar contê-lo, como fez esse tio meu. Quando a guarda chegava, a princípio ele se mostrava super calmo. Apenas quando anunciavam que o iriam levar ao hospital é que ele se revelava e se rebelava, tentando agredi-los. Aí era a força-tarefa para algemá-lo ou colocá-lo na camisa de força. E ainda ouvimos chegados perguntando: "mas porque sua mãe não se defende??". Ela se defendia e nos defendia, da forma que ela conseguia.
A primeira vez que vi minha mãe realmente conseguir se defender agressivamente dele foi uma vez em que ele a estava enforcando, o braço dele conferindo uma gravatada no pescoço dela, e ela o mordeu com força. Eu já tinha conseguido escapar e correr até o orelhão que tinha em frente ao Sesi e chamado a ambulância e a polícia, mas eles não chegavam. Entrei de novo na cozinha nesse momento em que ela o mordia. Ele não afrouxava de jeito nenhum. Vi o sangue escorrendo no braço dele, e ele não perdia a força. Peguei uma panela de pressão - única arma ao meu alcance - e já estava preparada para acertá-lo na cabeça (se preciso fosse), quando enfim ele a largou. Ela escorregou para se livrar do braço dele, e ele olhou o ferimento causado pelas mordidas dela. Olhou como se fosse algo extremamente inconcebível, e começou a reclamar: "olha só o que você fez no meu braço!!! Você me machucou!!". Não consigo esquecer a reação dele de surpresa e de indignação. Quando enfim a guarda chegou junto com a ambulância, ele só sabia mostrar o braço pra todo mundo, dizendo que a esposa o agrediu, chamando-a de louca. E todo mundo - todos os homens - olhando pra minha mãe e dizendo "calma, seu Luiz, vamos cuidar disso". Não sei o que pensaram da minha mãe - porque fora o motorista da ambulância que já o conhecia, o resto era sempre gente nova que vinha junto.
Com o passar do tempo, nós fomos crescendo e meu pai foi envelhecendo. Os ataques começaram a diminuir, até que passaram a ser apenas sermões religiosos para nos obrigar a seguir a mesma igreja que ele.
Saí de casa aos 23 anos e quando eu tinha 28 ele faleceu.
Durante todo o tempo em que meu pai esteve vivo, nós mulheres da casa Torsani-Fini desenvolvemos um senso forçado de independência masculina. Aprendemos que homens que protegem mulheres só existem nos livros e nos filmes. Na vida real, é cada um por si.
Quando meu pai morreu veio um outro tio meu querer dar lição de moral nas mulheres da casa Torsani-Fini e nos dizer o que deveríamos fazer. Isso no velório do meu pai. Aquilo me deixou alucinada, porque ele queria que nós o escutássemos e fizéssemos o que ele estava propondo apenas por ser homem. Porque na criação dele, ele aprendeu que o homem manda e as mulheres obedecem. E, afinal, agora éramos uma família só de mulheres, e precisávamos de um homem para colocar as coisas no lugar, claro! Fiquei revoltada, queria atacá-lo e perguntar "onde você estava quando nós REALMENTE precisávamos de um homem em casa??". A única vez que ele acatou o pedido da minha mãe para nos ajudar, marcou uma reuniãozinha na casa da minha avó, juntou apenas eu, minha mãe e minhas irmãs, e nos deu uma hora de bronca, dizendo que nós (as meninas) deveríamos ajudar mais a minha mãe em casa. Minha mãe ficou calada, nós ficamos caladas, eu ali achando que ele iria nos ajudar, nos ensinar alguma defesa pessoal, nos dizer que iria levar meu pai para longe da gente, falar que havia encontrado um puta hospital que cuidaria do meu pai. Mas não. O bonito apenas nos deu bronca. Eu deveria ter falado naquele dia o que eu pensei em dizer. Deveria ter falado "como você quer que eu ajude minha mãe nas horas que nos trancamos todas as quatro no quarto e escutamos meu pai bater na porta repetidas vezes para que ele entre e bata na minha mãe, ou pior; a mate?", ou "como ajudamos minha mãe quando ele tira uma faca enrolada em um pano de cozinha durante um picnic - arranjado por ele - e ameaça nos matar num parque vazio?", ou ainda "O que o senhor sugere como ajuda a minha mãe quando meu pai, com 1,75m, começa a surrá-la e nos empurrar para não atrapalhar a surra? Como exatamente 3 crianças com menos de 1,5m e menos de 40kg cada podem ajudar nessa hora?". Mas não falei nada disso. Nem na reuniãozinha na casa da minha avó e nem no velório do meu pai.  Nesse dia apenas o enfrentei com toda a doçura esperada de uma mulher brava e fizemos o que nós decidimos. Nós mulheres da casa Torsani-Fini. Sei que ele ajudou minha mãe em um momento financeiro que ela precisou. Mas isso não lhe dava o direito de fazer essas duas aparições ridículas na nossa vida.
Então, caro leitor, não. Eu não sinto que preciso de um homem na minha vida a não ser quando aparece uma barata na minha casa. Aprendi desde cedo que nenhum homem vai me salvar de nada, que eu tenho que ser forte e me defender sozinha de tudo e de todos. Que se eu mesma não me salvar, ninguém vai. E quando dizem "mas e um homem pra completar a sua vida?", eu digo "completar em que sentido? Está completa. E se eu precisar de alguma coisa que eu não sei fazer ou não tenho força física pra fazer, eu contrato alguém".
Em tempo: a casa está dedetizada. Entra morcego voando aqui direto mas já me acostumei. Quando aparecer uma barata eu grito.

  I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour,...