Eu estava na sexta ou na sétima série, tinha entre 12 e 13 anos. De vez em quando a professora de português nos pedia para que fizéssemos uma redação para ser lida em voz alta na sala de aula. Eu gostava disso, porque era o momento em que eu abria minha criatividade e escrevia crônicas cômicas que eram apreciadas pelos outros alunos – e pela professora em questão (embora minhas notas não fossem as melhores). Assim que a professora anunciava meu nome para a leitura do meu texto, os demais alunos se viravam ansiosos, me olhando e esperando que eu começasse a diverti-los. E eu lia minha redação com a melhor entonação cabível ao tema proposto, e logo os outros alunos explodiam em risadas e alvoroços. No final da leitura, a professora sempre fazia uma avaliação boa sobre minha criatividade, mas em seguida complementava com alguma correção de falhas que ela havia percebido na minha escrita. Não me importava; gostava mesmo de escrever coisas bestas e adorava notar como eu conseguia divertir os colegas de sala.
Uma vez, em época de dia dos namorados, a professora começou a pedir uma nova redação para a classe, e antes que eu pudesse ficar animada, ela disse:
- O tema da redação será o dia dos namorados!
Aquele balde de água fria nos meus ânimos... Eu não conseguia ser uma menininha romântica, eu era cômica. Levantei a mão:
- Professora, mas não precisa necessariamente ser uma redação sobre romance, precisa?
- Claro que sim, Ingrid – respondeu ela. – Eu quero que vocês escrevam sobre o primeiro encontro de um casal qualquer.
- Poxa, mas eu não sei escrever histórias de amor...
- Tente, será um bom desafio para você. Quem sabe dessa vez escutemos uma redação séria da sua parte.
A classe riu, ela também, mas eu não. Eu realmente não tinha a mínima vontade de escrever uma história de amor. O que seria engraçado em uma história de amor? (Me dê um desconto: eu era uma criança, não sabia que o amor é uma das coisas mais engraçadas que existem no mundo...).
Os dias foram passando e eu ainda não tinha nem começado a minha redação. Pensei em várias formas de escrever um conto onde um casalzinho feliz pudesse ser ridicularizado pela minha caneta, mas não conseguia chegar a algum roteiro que não fosse demasiado... chato. E era isso que histórias de amor se pareciam para mim: chatas.
No último dia antes da aula de português, onde eu teria que ler meu trabalho, peguei uma folha de caderno e um lápis e comecei algo que parecia assim (são mais de 30 anos, meu amigo, não vou me lembrar exatamente como eu escrevi):
“Angelina entrou pela sala escura fechando todas as cortinas, para evitar que a luz remanescente do sol penetrasse pelas frestas. Ela tinha acordado há pouco, mas seus tios ainda dormiam. Eram já seis horas de uma tarde de outono, e o sol parecia estar demorando mais do que o normal para se esconder por inteiro. Ela era uma vampira moça que ainda não tinha total conhecimento de seus poderes, e enquanto não podia usá-los da forma que bem entendesse, tinha aulas regulares com sua tia Gala durante o comecinho da noite. Elas se reuniam na sala de estar do imenso casarão em que viviam, e ficavam por algumas horas estudando a História da Transilvânia, mais precisamente sobre Vlad, o Empalador. Tia Gala havia dito que quando terminassem de estudar história, elas passariam a estudar Biologia e Anatomia Humana, para que ela soubesse tudo sobre o corpo humano e soubesse exatamente onde ela deveria morder para ter um fluxo bom e contínuo de sangue da sua vítima. Angelina sabia de vários casos de amigos vampiros que mordiam errado, e acabavam liberando um fluxo gigantesco de sangue das vítimas pelos ares, sujando todo o ambiente de uma vez só e não conseguindo beber quase nem uma gota de sangue sequer. Tia Gala dizia que sangue não podia ser desperdiçado daquela maneira.
Mas essa noite não haveria aula. Tia Gala e tio Minu achavam que Angelina já estava adulta o suficiente para conhecer um vampiro e se casar. Como era costume entre os vampiros, tio Minu arrumou um encontro entre ela e um vampiro amigo que ele conhecia desde quando ele morou no México, lá pelo século XII.
Angelina se sentou no sofá de camurça encardida e ficou imaginando porque um vampiro da idade do tio dela ainda estaria solteiro naquela época. Ele deveria ter mais de mil anos, e Angelina não conhecia um vampiro dessa idade que ainda fosse solteiro. Olhou para a mesinha de centro e arrumou as taças. Tia Gala havia preparado os mais variados petiscos preferidos de Angelina para que eles saboreassem juntos: olhos de hiena ao molho pardo cru, torradas com patê de sangue de cobra, insetos marinados no leite de morcega e baratinhas fritas. Para beber, sangue pisado de bichinhos mortos da estrada. Estava absorta quando ouviu o barulho de um burro gritando. Era a campainha tocando (seu tio Minu tinha mania de colocar sons bizarros em campainhas, buzina do carro, despertador. O som do telefone tocando era um bode rindo). Ela se levantou de um solavanco e bateu a cabeça no castiçal pendurado na parede atrás do sofá. Deu um grito, soltando um palavrão, e colocou a mão na cabeça, sentindo o sangue escorrer. O burro gritou de novo, e ela correu até a porta e a abriu. Do lado de fora estava o vampiro mais charmoso que ela já vira em sua vida: alto, pálido como a morte, cabelos negros que pareciam ter sido lambidos por uma vaca e olhos penetrantes como os de um defunto velho. Angelina sorriu timidamente, e falou:
- Boa noite!
O vampiro olhou para a porta e para os lados, como se buscasse uma confirmação de estar no endereço correto:
- Me desculpe – disse ele – mas aqui é a casa do Minu, não?
- Sim, é sim! – respondeu Angelina, sorrindo – Por favor, entre!
- Você é a Angelina??
- Sou sim!!
- Muito prazer, você é muito bonita. Eu sou Francis Fátuo.
O vampiro entrou, e quando passou por ela, Angelina pode sentir seu perfume fresco de esterco. Devia ser daqueles vampiros naturebas que dormiam em covas na floresta.
Ela apontou o sofá, para que ele se sentasse.
- Eu sinto cheiro de sangue coagulado - disse ele, apertando as narinas como se fosse um cachorro. - Tem algum humano sangrando por aqui??
Angelina sorriu:
- Não, é meu sangue. Eu bati a cabeça no castiçal e me machuquei.
- Ahh. Foi você quem gritou um palavrão?
Angelina arregalou os olhos:
- Caramba, você ouviu?
O vampiro suspirou:
- Ouvi. Tenho ouvidos de águia, escuto tudo.
Angelina franziu o cenho e teve vontade de corrigi-lo dizendo "ouvidos de tuberculoso ou olhos de águia", mas não o fez. Ele se sentou no sofá encardido e ela o acompanhou.
- Seu tio me disse que você está buscando um marido... - começou ele.
- Hum, estou sim.
- E eu poderia ser seu marido?
Angelina coçou o queixo e se serviu de um olho de hiena. Mordeu com tanta força que ele escorregou e acabou sendo atirado pra fora da sua boca. Francis acompanhou a trajetória da comida escapando e fez cara de nojo:
- Caramba, como você é porca! - disse ele, sorrindo. - Que sexy!!
Angelina sorriu, baixando os olhos:
- Obrigada!
Pegou outro olho e o engoliu sem mastigar. Chupou os dentes estralando a língua e respondeu:
- Então, senhor Francis... eu gostei muito do senhor. Claro que poderia ser meu marido!
- Ótimo - respondeu Francis. - Vamos agendar a data do nosso casamento então para o próximo Halloween!! Eu não cuido de nada e você prepara tudo, pode ser assim?
Angelina ficou extasiada com a praticidade de Francis:
- Lógico que sim!! Adorei!!
Francis tomou sua mão, deu uma mordidinha de leve arrancando um pouco de sangue (que chupou), levantou-se e foi embora.
Angelina, feliz, rodopiou pela sala e tropeçou no tapete de urso carcomido. Caiu no chão e lascou o canino direito.
Levantou-se rápido, esticou o vestido e chamou tia Gala para contar que estava noiva. E também para pedir logo o restante das aulas de História da Transilvânia: precisava terminar os estudos antes do casamento, para depois se dedicar a ser a ser a esposa perfeita."
Quando terminei de ler, olhei para os alunos e para a professora. Eles não pareciam ter se divertido como nos outros contos (algumas meninas pareciam meio enojadas), e a professora me olhava com desdém.
- É, dona Ingrid - disse ela. - Foi uma redação estranha. Mas devo admitir que você cumpriu o que eu pedi. Sua nota é 8.
Fiquei feliz e me senti realizada. Era um dos poucos momentos em minha vida em que eu me mostrava totalmente rebelde: fiz o que ela havia pedido mas da maneira como eu quis.
Tudo bem que os meus colegas de sala não riram tanto como das outras vezes, mas não tinha problema. Na próxima redação, eu contaria uma história de alguém peidando alto em um ônibus. Peidos sempre arrancavam boas risadas.
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