Saturday, October 03, 2020

Serafina

 Eu queria um nome bonito para a morte. Mas eu queria um nome simples, fácil, comum. Não queria chamá-la de Dona Morte. Morte, A Hora, Ankou, Sedna, Aita como em diferentes mitologias. Eu queria um nome bem abrasileirado mesmo, daqueles bem Josefa do Amaral Silva, que me fizessem ter simpatia pela dita, e não medo. Nem medo e nem respeito, porque eu não queria respeitar algo que me levaria daqui pra sempre para um mundo do qual eu não acreditava, e, portanto, não sabia nada a respeito. Queria um nome de gente. Um nome prosaico: Serafina. E Serafina também deveria ser colorida: nada de véus pretos enrolados pelo corpo magro, mãos ossudas segurando uma foice alta para me puxar pelo pescoço na hora da partida como se eu fosse uma galinha fugitiva. Serafina seria gorda, mãos cheias de dobrinhas, bochechas vermelhas de tanto dar risada, olhos castanhos redondos e nariz caramelo pontudo. Serafina usaria um chapéu alto roxo, um vestido longo laranja fogo, sapatos de camurça verde musgo. Eu a enxergaria bem de longe quando ela viesse me buscar. Pronto, eu não precisava temer uma pessoa real, colorida, chamada Serafina, que viria algum dia ao meu encontro e me tiraria daqui. Eu a reconheceria num piscar de olhos, e não teria tempo de tentar fazê-la mudar de idéia: Serafina seria encantadora demais para que eu não quisesse acompanhá-la. A risada viva, as cores quentes, os olhos castanhos sedutores. Serafina faria com que eu me sentisse bem.

Passei anos esperando Serafina. A cada esquina, a cada rua atravessada, a cada gole de café sorvido com mais vontade. A cada tecido cor de laranja que passava diante dos meus olhos, um frio se alastrava pela minha espinha. Eu pressionava o olhar em busca dos outros elementos que evidenciariam Serafina, mas ela nunca estava lá. A cada risada alta e nua, a cada mão gorda cheia de dobrinhas, a cada sapato de camurça verde musgo. Serafina se tornou o príncipe encantado que eu esperava todos os dias. Eu não conseguia mais trabalhar, não conseguia mais viver as alegrias dos meus dias. Não queria mais atravessar as ruas. Não queria mais sorver goles de café. Porque Serafina não me queria? Eu a moldei, eu a criei, e ela não me queria. Todos os dias ela vinha buscar alguém; alguém que passava a vê-la e a ouvir sua risada, alguém que sentia a delicadeza de seu vestido laranja. Mas não eu. Serafina não me queria. Cansada de esperar Serafina, desci até a rua principal. Esperei para atravessar. Assim que avistei o ônibus virando a esquina, atravessei, de modo que ele não conseguisse parar. Ele não parou. Eu parti. E ainda assim Serafina não veio me ver.

Thursday, July 02, 2020

Uma história de amor

Eu estava na sexta ou na sétima série, tinha entre 12 e 13 anos. De vez em quando a professora de português nos pedia para que fizéssemos uma redação para ser lida em voz alta na sala de aula. Eu gostava disso, porque era o momento em que eu abria minha criatividade e escrevia crônicas cômicas que eram apreciadas pelos outros alunos – e pela professora em questão (embora minhas notas não fossem as melhores). Assim que a professora anunciava meu nome para a leitura do meu texto, os demais alunos se viravam ansiosos, me olhando e esperando que eu começasse a diverti-los.  E eu lia minha redação com a melhor entonação cabível ao tema proposto, e logo os outros alunos explodiam em risadas e alvoroços. No final da leitura, a professora sempre fazia uma avaliação boa sobre minha criatividade, mas em seguida complementava com alguma correção de falhas que ela havia percebido na minha escrita. Não me importava; gostava mesmo de escrever coisas bestas e adorava notar como eu conseguia divertir os colegas de sala.
Uma vez, em época de dia dos namorados, a professora começou a pedir uma nova redação para a classe, e antes que eu pudesse ficar animada, ela disse:
- O tema da redação será o dia dos namorados!
Aquele balde de água fria nos meus ânimos... Eu não conseguia ser uma menininha romântica, eu era cômica. Levantei a mão:
- Professora, mas não precisa necessariamente ser uma redação sobre romance, precisa?
- Claro que sim, Ingrid – respondeu ela. – Eu quero que vocês escrevam sobre o primeiro encontro de um casal qualquer.
- Poxa, mas eu não sei escrever histórias de amor...
- Tente, será um bom desafio para você. Quem sabe dessa vez escutemos uma redação séria da sua parte.
A classe riu, ela também, mas eu não. Eu realmente não tinha a mínima vontade de escrever uma história de amor. O que seria engraçado em uma história de amor? (Me dê um desconto: eu era uma criança, não sabia que o amor é uma das coisas mais engraçadas que existem no mundo...).
Os dias foram passando e eu ainda não tinha nem começado a minha redação. Pensei em várias formas de escrever um conto onde um casalzinho feliz pudesse ser ridicularizado pela minha caneta, mas não conseguia chegar a algum roteiro que não fosse demasiado... chato. E era isso que histórias de amor se pareciam para mim: chatas.
No último dia antes da aula de português, onde eu teria que ler meu trabalho, peguei uma folha de caderno e um lápis e comecei algo que parecia assim (são mais de 30 anos, meu amigo, não vou me lembrar exatamente como eu escrevi):

“Angelina entrou pela sala escura fechando todas as cortinas, para evitar que a luz remanescente do sol penetrasse pelas frestas. Ela tinha acordado há pouco, mas seus tios ainda dormiam. Eram já seis horas de uma tarde de outono, e o sol parecia estar demorando mais do que o normal para se esconder por inteiro. Ela era uma vampira moça que ainda não tinha total conhecimento de seus poderes, e enquanto não podia usá-los da forma que bem entendesse, tinha aulas regulares com sua tia Gala durante o comecinho da noite. Elas se reuniam na sala de estar do imenso casarão em que viviam, e ficavam por algumas horas estudando a História da Transilvânia, mais precisamente sobre Vlad, o Empalador. Tia Gala havia dito que quando terminassem de estudar história, elas passariam a estudar Biologia e Anatomia Humana, para que ela soubesse tudo sobre o corpo humano e soubesse exatamente onde ela deveria morder para ter um fluxo bom e contínuo de sangue da sua vítima. Angelina sabia de vários casos de amigos vampiros que mordiam errado, e acabavam liberando um fluxo gigantesco de sangue das vítimas pelos ares, sujando todo o ambiente de uma vez só e não conseguindo beber quase nem uma gota de sangue sequer. Tia Gala dizia que sangue não podia ser desperdiçado daquela maneira.
Mas essa noite não haveria aula. Tia Gala e tio Minu achavam que Angelina já estava adulta o suficiente para conhecer um vampiro e se casar. Como era costume entre os vampiros, tio Minu arrumou um encontro entre ela e um vampiro amigo que ele conhecia desde quando ele morou no México, lá pelo século XII. 
Angelina se sentou no sofá de camurça encardida e ficou imaginando porque um vampiro da idade do tio dela ainda estaria solteiro naquela época. Ele deveria ter mais de mil anos, e Angelina não conhecia um vampiro dessa idade que ainda fosse solteiro. Olhou para a mesinha de centro e arrumou as taças. Tia Gala havia preparado os mais variados petiscos preferidos de Angelina para que eles saboreassem juntos: olhos de hiena ao molho pardo cru, torradas com patê de sangue de cobra, insetos marinados no leite de morcega e baratinhas fritas. Para beber, sangue pisado de bichinhos mortos da estrada. Estava absorta quando ouviu o barulho de um burro gritando. Era a campainha tocando (seu tio Minu tinha mania de colocar sons bizarros em campainhas, buzina do carro, despertador. O som do telefone tocando era um bode rindo). Ela se levantou de um solavanco e bateu a cabeça no castiçal pendurado na parede atrás do sofá. Deu um grito, soltando um palavrão, e colocou a mão na cabeça, sentindo o sangue escorrer. O burro gritou de novo, e ela correu até a porta e a abriu. Do lado de fora estava o vampiro mais charmoso que ela já vira em sua vida: alto, pálido como a morte, cabelos negros que pareciam ter sido lambidos por uma vaca e olhos penetrantes como os de um defunto velho. Angelina sorriu timidamente, e falou:
- Boa noite!
O vampiro olhou para a porta e para os lados, como se buscasse uma confirmação de estar no endereço correto:
- Me desculpe – disse ele – mas aqui é a casa do Minu, não?
- Sim, é sim! – respondeu Angelina, sorrindo – Por favor, entre!
- Você é a Angelina??
- Sou sim!!
- Muito prazer, você é muito bonita. Eu sou Francis Fátuo.
O vampiro entrou, e quando passou por ela, Angelina pode sentir seu perfume fresco de esterco. Devia ser daqueles vampiros naturebas que dormiam em covas na floresta.
Ela apontou o sofá, para que ele se sentasse. 
- Eu sinto cheiro de sangue coagulado - disse ele, apertando as narinas como se fosse um cachorro. - Tem algum humano sangrando por aqui??
Angelina sorriu:
- Não, é meu sangue. Eu bati a cabeça no castiçal e me machuquei.
- Ahh. Foi você quem gritou um palavrão?
Angelina arregalou os olhos:
- Caramba, você ouviu?
O vampiro suspirou:
- Ouvi. Tenho ouvidos de águia, escuto tudo.
Angelina franziu o cenho e teve vontade de corrigi-lo dizendo "ouvidos de tuberculoso ou olhos de águia", mas não o fez. Ele se sentou no sofá encardido e ela o acompanhou.
- Seu tio me disse que você está buscando um marido... - começou ele.
- Hum, estou sim. 
- E eu poderia ser seu marido?
Angelina coçou o queixo e se serviu de um olho de hiena. Mordeu com tanta força que ele escorregou e acabou sendo atirado pra fora da sua boca. Francis acompanhou a trajetória da comida escapando e fez cara de nojo:
- Caramba, como você é porca! - disse ele, sorrindo. - Que sexy!!
Angelina sorriu, baixando os olhos:
- Obrigada!
Pegou outro olho e o engoliu sem mastigar. Chupou os dentes estralando a língua e respondeu:
Então, senhor Francis... eu gostei muito do senhor. Claro que poderia ser meu marido!
- Ótimo - respondeu Francis. - Vamos agendar a data do nosso casamento então para o próximo Halloween!! Eu não cuido de nada e você prepara tudo, pode ser assim?
Angelina ficou extasiada com a praticidade de Francis:
- Lógico que sim!! Adorei!!
Francis tomou sua mão, deu uma mordidinha de leve arrancando um pouco de sangue (que chupou), levantou-se e foi embora.
Angelina, feliz, rodopiou pela sala e tropeçou no tapete de urso carcomido. Caiu no chão e lascou o canino direito. 
Levantou-se rápido, esticou o vestido e chamou tia Gala para contar que estava noiva. E também para pedir logo o restante das aulas de História da Transilvânia: precisava terminar os estudos antes do casamento, para depois se dedicar a ser a ser a esposa perfeita."

Quando terminei de ler, olhei para os alunos e para a professora. Eles não pareciam ter se divertido como nos outros contos (algumas meninas pareciam meio enojadas), e a professora me olhava com desdém. 
- É, dona Ingrid - disse ela. - Foi uma redação estranha. Mas devo admitir que você cumpriu o que eu pedi. Sua nota é 8.
Fiquei feliz e me senti realizada. Era um dos poucos momentos em minha vida em que eu me mostrava totalmente rebelde: fiz o que ela havia pedido mas da maneira como eu quis. 
Tudo bem que os meus colegas de sala não riram tanto como das outras vezes, mas não tinha problema. Na próxima redação, eu contaria uma história de alguém peidando alto em um ônibus. Peidos sempre arrancavam boas risadas.

Tuesday, June 30, 2020

Visita na Torre



Vamos concordar que uma torre de controle desperta a curiosidade de várias pessoas, não? Eu mesma nunca havia entrado em uma antes de fazer o curso de controle de tráfego aéreo, mas sempre que meu pai me levava a Viracopos aos domingos, ele apontava pra torrinha pintada de um quadriculado laranja e branco e falava:
- Olha, ali é que fica o controlador de voo! Ele que controla toda a movimentação dos aviões aqui!
E eu ficava olhando a torrinha, imaginando como seria lá dentro. Mas nunca imaginei que meu pai poderia, naquela época, ter tentado contato com o pessoal da Infraero e tentado uma visita pra gente.
Depois de muitos anos, já trabalhando em Guarulhos, vi o tanto de gente que visita a torre. São entusiastas da aviação, estudantes do ramo, tripulação ou funcionários de companhias aéreas. Normalmente eu não me irritava com as visitas não, pelo contrário. Gostava de ver aquele tanto de gente observando meu trabalho, me sentia importante. Nunca me senti diferente por causa disso... diferente aqui eu digo em uma conotação um pouco bizarra: nunca me senti um animalzinho estranho sendo observado numa jaula de zoológico, por exemplo.
Mas depois eu soube que alguns controladores se sentiam dessa forma. Alguns colegas mais próximos relataram que não gostavam das visitas porque se sentiam observados de uma maneira atípica, como se fossem bichinhos exóticos.
Já teve vezes em que eu me irritei com visita sim. Uma vez veio uma família, e um garoto de uns 8 anos subiu no pé giratório da cadeira em que eu estava sentada, e ficou meio que pendurado atrás de mim se balançando. Eu não abri a boca, continuei trabalhando e fingindo que o menino não estava imitando um macaco mudo atrás de mim. Depois de um tempo apenas foi que a mãe dele percebeu que ele deveria estar me incomodando e pediu para que ele parasse de me balançar. Ele desceu da cadeira ressabiado. E eu continuei calada e trabalhando normalmente.
Eu estava na torre no dia em que a Ana Maria Braga foi nos visitar. Ficamos todos alvoroçados na cabine, todo mundo querendo saber se o Louro José viria junto. Claro que eu queria o Louro José do programa, um papagaio de espuma gigante voando pela torre, parando na mesa do supervisor e falando besteira pra gente com aquela voz característica dele. Não queria vê-lo como um baita fantoche na mão de um ser humano fazendo a vozinha dele. De qualquer maneira, ele não veio. Chegou apenas a Ana Maria com a equipe de filmagem da Globo. Ela ficou surpresa de ver o tanto de mulher trabalhando como controladoras e falou diretamente com a gente.
Equipes de televisão e revista também causavam furor na torre. Para o bem e para o mal. Os controladores que gostavam de aparecer num cantinho qualquer de um programa de televisão (como eu), logo se empolgavam com a notícia das visitas. Os que se sentiam os bichinhos exóticos ou os que apenas não gostavam dessa divulgação de imagem, logo se aborreciam. (Confesso que a maioria fazia festa: pessoal vinha tudo bem vestido, de banho tomado e cabelo aprumado pras câmeras). Minha primeira aparição na tv foi em um telejornal da TV Bandeirantes. Não me lembro o teor da reportagem, mas eles gostaram de me filmar dando uma instrução para o Air Canada em inglês e depois ficaram pedindo para que eu gravasse o áudio da instrução de novo, para colocá-lo depois da edição com a imagem. E eu fiquei lá, fingindo dar a mesma instrução umas quatro vezes seguidas para que eles gravassem. Depois, quando vi a reportagem, vi que eles apenas mostraram a imagem da minha pessoa bem rápido, sem áudio algum, e cortaram logo para a imagem do Air Canada se movimentando no pátio. Foi quando imaginei que talvez meu inglês aprendido com dona Neusa não causasse um impacto positivo numa reportagem (talvez por isso mesmo o repórter tenha pedido para eu gravar tantas vezes seguidas, e ainda assim provavelmente não tenha conseguido aproveitar nenhum take).
Também tive meu momento maquiadora, quando a revista Veja SP foi nos visitar para fazer uma reportagem a respeito da nossa profissão. Eles pediram para que o controlador mais antigo da torre desse a entrevista para a revista, e tiraram algumas fotos dele. Porém, nosso controlador era calvo, e em todas as fotos a careca dele refletia a iluminação do flash e atrapalhava. Assim sendo, o pessoal da produção pediu se alguma das mulheres tinha pó compacto na bolsa para que eles ajeitassem o problema. Eu tinha, e me ofereci para “cobrir” o brilho da careca do meu colega. Fui passando o pó e ele desesperado gritando:
- Não me deixe com cara de maquiado não!!! Não me deixe cheio de pó!
Mas ficou bem sutil e ajudou a dispersar a luz do flash.
A foto dele foi capa da revista. A Veja não me mencionou como maquiadora exclusiva... Só me chateio de lembrar que eu nunca guardei uma cópia dela pra mim.
E era assim. Num dia era uma família esperando um voo, noutro dia uma equipe de gravação, no outro estudantes de gastronomia. Nada me afetava negativamente, pelo contrário. O único dia que talvez eu tenha me sentido mais próximo de algo como um bichinho enjaulado foi quando recebemos um grupo de umas 15 pessoas, e um controlador mais antigo, ao vê-los rodeando a gente com olhares curiosos, falou alto:
- Por favor, não alimentem os controladores!!!

Sunday, June 28, 2020

Guididi versus o sexo masculino como vital

Muitas pessoas me perguntam se eu não sinto falta de um homem na minha vida. Eu sempre respondo, nessas ocasiões, um "sim, sinto. Quando aparece uma barata em casa eu surto, e nessa hora gostaria de ter um homem ali para matá-la". E não é mentira. A verdade é que não precisa ser um homem exatamente pra matar a barata; eu posso ter uma vizinha corajosa ou uma amiga a postos. Baratas me carregam de um pavor inexplicável e instantâneo.
Mas fora o fato das baratas, não consigo sinceramente pensar em outra razão pela qual eu PRECISE de um homem na minha vida.
Não estou sendo feminista e muito menos auto-suficiente. Também não bato na tecla irritante de que "todos os homens são iguais" ou "homem não presta pra nada". Não é nada disso. Gosto de homens; dos meus melhores e amados amigos, a maioria é homem. Apenas não acho que PRECISO de um homem pra minha vida ser completa como muitos pensam, só isso. Minha vida foi marcada por eventos que me levaram a essa independência, mesmo contra a minha vontade.
Quando eu era pequena, vivi - junto a minhas irmãs e minha mãe - momentos de terror na minha casa. Meu pai era esquizofrênico, e durante os surtos psicóticos que ele passava, ficava muito violento. Meu pai não era um homem corpulento e forte, mas nesses momentos (horas, dias na verdade) de surto, ele tinha uma força que nem 5 homens conseguiam dominar. Imagine essa força toda voltada para agredir minha mãe e para nos ameaçar a cada sermão bíblico que ele nos dava. Sim, porque as passagens bíblicas que ele mais gostava eram aquelas que contavam de pais matando os próprios filhos. Ouvíamos as passagens completamente aterrorizadas, imaginando o que viria a seguir. Quando ele conseguia pensar com mais malignidade, escondia uma faca de cozinha em algum lugar da sua roupa, e a revelava nalgum trecho mais oportuno do sermão, aumentando nosso terror. Todas essas vezes nós estávamos sozinhas, quatro pessoas femininas: uma mulher e três criancinhas. Por vezes estávamos apenas três; minha irmã caçula era escondida por minha mãe na casa de alguma vizinha - normalmente dona Mafalda, mulher forte e que parecia não ter medo do meu pai. Ela não entrava em nossa casa pra nos defender, mesmo por não conhecer totalmente a mente doente dele. Mas estava sempre a postos pra esconder minha irmã, e eventualmente minha mãe. Nessas horas éramos apenas eu e a Renata à mercê do louco.
Por muitas vezes eu desejei ter um irmão mais velho. Achava que uma figura masculina em casa nos salvaria, mostraria ao meu pai que ele não poderia nos ferir e agredir minha mãe. Porque meu próprio pai nos ensinou - e nos mostrou - que homem tem muita força física, enquanto nós mulheres temos o corpo frágil e nunca conseguiríamos dominá-lo.
Mas a figura masculina não existia ali, e os poucos homens a quem minha mãe gritou por socorro, nos abandonavam. Diziam não ser problema deles e que eles não poderiam fazer nada pra nos ajudar. Nos largavam lá, aterrorizadas, minha mãe sendo agredida fisicamente. Uma vez veio um tio - conversou com meu pai mas não conseguiu acalmá-lo. Quando tentou contê-lo fisicamente, não deu conta sozinho. E foi o máximo que conseguimos de ajuda dele. Os homens só ajudavam mesmo quando eram os meninos da guarda municipal que chegavam para ajudar a segurar meu pai e colocá-lo na ambulância com destino ao pronto socorro e futuramente uma internação em um hospital psiquiátrico. O problema eram as horas, os dias que se passavam até que conseguíssemos correr e achar um telefone para ligar no 192 e solicitar uma ambulância, sempre acompanhada do pedido "tragam a polícia junto porque ele está extremamente agressivo". Aí depois de alguns minutos chegava a caravan branca do pronto socorro, munida de um motorista e um enfermeiro homem, seguida pelo carro da guarda com alguns rapazes. E era a imagem que eu gravei: cinco homens, quatro homens, três homens e uma camisa de força para conter a fúria e a força do esquizofrênico. Antes desse mini exército, eram 4 mulheres franzinas que ficavam sob a mira daquelas mãos pesadas. Não, nunca teve um homem para nos salvar nos momentos de terror. Nunca teve um homem pra abraçar a gente e dizer "calma, vai dar tudo certo". Também não queria um irmão homem para segurar meu pai durante os ataques - porque sei que um homem sozinho não conseguiria. Mas é fato que meu pai abrandava a agressividade quando tinha algum homem perto. Parece que mesmo durante  o surto ele sabia distinguir quando ser machão e quando ser mais contido. Ele sabia que um homem tinha mais força que a gente e poderia ao menos tentar contê-lo, como fez esse tio meu. Quando a guarda chegava, a princípio ele se mostrava super calmo. Apenas quando anunciavam que o iriam levar ao hospital é que ele se revelava e se rebelava, tentando agredi-los. Aí era a força-tarefa para algemá-lo ou colocá-lo na camisa de força. E ainda ouvimos chegados perguntando: "mas porque sua mãe não se defende??". Ela se defendia e nos defendia, da forma que ela conseguia.
A primeira vez que vi minha mãe realmente conseguir se defender agressivamente dele foi uma vez em que ele a estava enforcando, o braço dele conferindo uma gravatada no pescoço dela, e ela o mordeu com força. Eu já tinha conseguido escapar e correr até o orelhão que tinha em frente ao Sesi e chamado a ambulância e a polícia, mas eles não chegavam. Entrei de novo na cozinha nesse momento em que ela o mordia. Ele não afrouxava de jeito nenhum. Vi o sangue escorrendo no braço dele, e ele não perdia a força. Peguei uma panela de pressão - única arma ao meu alcance - e já estava preparada para acertá-lo na cabeça (se preciso fosse), quando enfim ele a largou. Ela escorregou para se livrar do braço dele, e ele olhou o ferimento causado pelas mordidas dela. Olhou como se fosse algo extremamente inconcebível, e começou a reclamar: "olha só o que você fez no meu braço!!! Você me machucou!!". Não consigo esquecer a reação dele de surpresa e de indignação. Quando enfim a guarda chegou junto com a ambulância, ele só sabia mostrar o braço pra todo mundo, dizendo que a esposa o agrediu, chamando-a de louca. E todo mundo - todos os homens - olhando pra minha mãe e dizendo "calma, seu Luiz, vamos cuidar disso". Não sei o que pensaram da minha mãe - porque fora o motorista da ambulância que já o conhecia, o resto era sempre gente nova que vinha junto.
Com o passar do tempo, nós fomos crescendo e meu pai foi envelhecendo. Os ataques começaram a diminuir, até que passaram a ser apenas sermões religiosos para nos obrigar a seguir a mesma igreja que ele.
Saí de casa aos 23 anos e quando eu tinha 28 ele faleceu.
Durante todo o tempo em que meu pai esteve vivo, nós mulheres da casa Torsani-Fini desenvolvemos um senso forçado de independência masculina. Aprendemos que homens que protegem mulheres só existem nos livros e nos filmes. Na vida real, é cada um por si.
Quando meu pai morreu veio um outro tio meu querer dar lição de moral nas mulheres da casa Torsani-Fini e nos dizer o que deveríamos fazer. Isso no velório do meu pai. Aquilo me deixou alucinada, porque ele queria que nós o escutássemos e fizéssemos o que ele estava propondo apenas por ser homem. Porque na criação dele, ele aprendeu que o homem manda e as mulheres obedecem. E, afinal, agora éramos uma família só de mulheres, e precisávamos de um homem para colocar as coisas no lugar, claro! Fiquei revoltada, queria atacá-lo e perguntar "onde você estava quando nós REALMENTE precisávamos de um homem em casa??". A única vez que ele acatou o pedido da minha mãe para nos ajudar, marcou uma reuniãozinha na casa da minha avó, juntou apenas eu, minha mãe e minhas irmãs, e nos deu uma hora de bronca, dizendo que nós (as meninas) deveríamos ajudar mais a minha mãe em casa. Minha mãe ficou calada, nós ficamos caladas, eu ali achando que ele iria nos ajudar, nos ensinar alguma defesa pessoal, nos dizer que iria levar meu pai para longe da gente, falar que havia encontrado um puta hospital que cuidaria do meu pai. Mas não. O bonito apenas nos deu bronca. Eu deveria ter falado naquele dia o que eu pensei em dizer. Deveria ter falado "como você quer que eu ajude minha mãe nas horas que nos trancamos todas as quatro no quarto e escutamos meu pai bater na porta repetidas vezes para que ele entre e bata na minha mãe, ou pior; a mate?", ou "como ajudamos minha mãe quando ele tira uma faca enrolada em um pano de cozinha durante um picnic - arranjado por ele - e ameaça nos matar num parque vazio?", ou ainda "O que o senhor sugere como ajuda a minha mãe quando meu pai, com 1,75m, começa a surrá-la e nos empurrar para não atrapalhar a surra? Como exatamente 3 crianças com menos de 1,5m e menos de 40kg cada podem ajudar nessa hora?". Mas não falei nada disso. Nem na reuniãozinha na casa da minha avó e nem no velório do meu pai.  Nesse dia apenas o enfrentei com toda a doçura esperada de uma mulher brava e fizemos o que nós decidimos. Nós mulheres da casa Torsani-Fini. Sei que ele ajudou minha mãe em um momento financeiro que ela precisou. Mas isso não lhe dava o direito de fazer essas duas aparições ridículas na nossa vida.
Então, caro leitor, não. Eu não sinto que preciso de um homem na minha vida a não ser quando aparece uma barata na minha casa. Aprendi desde cedo que nenhum homem vai me salvar de nada, que eu tenho que ser forte e me defender sozinha de tudo e de todos. Que se eu mesma não me salvar, ninguém vai. E quando dizem "mas e um homem pra completar a sua vida?", eu digo "completar em que sentido? Está completa. E se eu precisar de alguma coisa que eu não sei fazer ou não tenho força física pra fazer, eu contrato alguém".
Em tempo: a casa está dedetizada. Entra morcego voando aqui direto mas já me acostumei. Quando aparecer uma barata eu grito.

Wednesday, April 08, 2020

Gelo no uísque

Bom, primeiro que quem inventou de colocar gelo no uísque nem é muito gente. É uma mistura de boitatá e Cuca. Foi uma idéia de jerico que pegou e se alastrou que nem a peste bubônica e o povo acha que é bão. Nem adianta reclamar e bater o pé: uísque (ou whiskey, ou whisky) é pra beber aos poucos, saboreando bem o malte, e dessa forma a porcaria do gelo vai derretendo e vai contaminando a bebida. No final eh uma água gelada com um fundinho alcoólico quase imperceptível.
O boitatá que tá lendo isso aqui e se contorcendo: pó se contorcê à vontade aí, menino, uísque se bebe puro.

Postado no facebook dia 24/11/19.

A história da mãe d’ouro

Eu adorava as histórias da minha avó.
Essa eu vou contar mais ou menos como me lembro, porque eu era bem pequena quando ela me contou.
Ela contava que se casou pelos anos 30, e foi morar em uma fazenda com meu avô. Eles trabalhavam na plantação da fazenda em troca de moradia.
A casinha deles ficava bem afastada de qualquer outro trabalhador da fazenda, e meu avô gostava de ir a cavalo a um bar todas as noites para encontrar os amigos, e minha avó ficava sozinha na casa.
O lugar era muito escuro, cheio de mato ao redor, apenas barulhos de bichos quebravam o silêncio noturno.
Não havia televisão (claro), nem luz elétrica, nem vizinhas ou amigas para conversar. Havia apenas lampiões, terra, mato e bichos.
Uma noite dessas, sozinha em casa, minha avó acabou de jantar e recolheu o lixo da pia. Colocou tudo num saco e abriu a porta da cozinha para jogar o lixo fora. Quando ela saiu na área de terra ao redor da casa, viu uma luz aumentar próximo a uma árvore. A luz ficou mais forte e ela percebeu o que parecia ser uma bola de fogo parada em cima da árvore. Ela ficou olhando a bola de fogo, que estava imóvel, sem entender o que era.
Depois de alguns minutos olhando a coisa, sem saber do que se tratava, a bola desceu da árvore, voando, e correu em direção à minha avó. Ela, desesperada, correu pra dentro de casa e bateu a porta atrás de si. Olhou para a janela fechada da cozinha e percebeu quando o clarão da tal bola de fogo passou correndo pelo lado de fora, circulando a casa, e em seguida desapareceu.
Quando meu avô chegou em casa, ela contou o que tinha acontecido e meu avô não acreditou, achou que fosse algo inventado por ela para que ele passasse a ficar mais em casa.
Dessa forma, no dia seguinte, ele voltou a pegar o cavalo e se dirigir ao bar para encontrar os amigos.
Nessa noite, porém, nada de estranho aconteceu.
Passaram alguns dias e de novo, quando minha avó saiu para colocar o lixo pra fora, percebeu a luz novamente se acendendo em cima da árvore e ficando cada vez mais forte.
Minha avó novamente correu pra dentro de casa e viu o clarão da bola de fogo circulando a casa como da vez anterior, para em seguida apagar completamente.
Minha avó contou que isso aconteceu por várias noites, até que do nada, parou.
E ela nunca soube o que era a tal bola de fogo.


Postado no facebook dia 16/01/20.

Exigente, eu??

Marrapaz, cêis não sabe o que é ser exigente não... se eu fosse exigente iria querer alguém que curtisse Gustavo Santaolalla, Mychael Danna, Éric Serra, Joe Hisaishi, Thomas Newman, Beethoven, Yes, Hans Zimmer, E. S. Posthumus, Peter Gabriel e Elvis Presley.


Postado no facebook dia 20/01/20.

Matei uma barata

Ai meu santo.
Matei uma barata.
Ela veio voando pela porta da cozinha. Grudou na parede lá em cima e ficou me zombando. Peguei a vassoura e meti sem dó no azulejo branco. Ficou aquela freada de terra na parede.
Ela voou pra algum outro lugar que eu não vi, tão desesperada eu tava em proteger meu cabelo daquele monstro que morde. Comecei a gritar pela cozinha e corri.
Voltei pra sala e a vejo majestosa na parede. Paro de gritar, pego minha super Havaianas e meto-lhe bem no meio das fuças, arrebentando suas asas malignas e peçonhentas. Pronto.
Ali no chão jaz seu corpo pálido.

P.S.: saiba que toda essa minha ousadia foi com uma barata que media 1,5 cm.


Postado no facebook dia 22/02/2017.
Ok, assunto polêmico: sabe quando a paulista deixa a piauiense no vácuo com apenas um beijinho no rosto? Então, já deixei trocentas pessoas me olhando feio porque elas foram com a cabeça na direção oposta do primeiro beijo e eu já tinha saído pra cumprimentar a próxima (e deixá-la no vácuo tb, obviamente).  E a pessoa ficou parada lá, fazendo bico, apoiando o peso do corpo numa perna só, meio torta.
O problema é que o país não é padronizado nem no quesito idioma, que dirá no beijinho.
No idioma eu já dei uns foras bacanas tb. Tipo quando o Cesar me disse um “arrocha!” saindo de um posto de gasolina. Freei o carro e fiquei olhando, procurando a pedra no meio do caminho. Não que eu tenha o costume de chamar pedra de rocha, mas pelo tamanho do grito do moço, imaginei que no Piauí eles chamassem bloco solto de asfalto de rocha. Depois de solucionar o mistério, avisei: “aqui a gente fala pisa fundo, amigo, tu nunca mais me assusta assim”. E isso porque eu nem vou tocar no assunto do bombom. Que ele chama bala de eucalipto de bombom (e qualquer outra bala nada-a-ver-com-bolinhas-de-chocolate).
De qualquer maneira, segue o mapinha dos beijinhos no Brasil, pra gente tentar diminuir os vácuos.
Ahhh, e segue o da França também de curiosidade. Se vc acha ruim ter que dar 3 beijinhos, imagina 4 como em algumas regiões francesas... deve dar até cãimbra nas bochechas.




Postado no facebook dia 27/02/20.

Mensagem aos restaurantes

Atenção senhores garçons, gerentes de restaurantes, maîtres, atendentes de lanchonete: gente, bora abolir esse negócio de ir perguntar “veio tudo certo no seu pedido?” bem no meio daquela garfada monstro que o cliente deu. Eu tava aqui tentando abocanhar um sanduíche duplo, cheio de coisa caindo no prato, mó bocão aberto, mãos cheias de maionese (a única que eu como, por sinal), aquela cena típica de um tiranossauro destroçando um estegossauro depois de ter saído da dieta, sabe? Acho que até grunhindo eu tava enquanto tentava morder o duplex. Aí, no meio da minha selvageria, escuto:
- Veio tudo certo com seu lanche??
Parei no meio do abate, não sabia se respondia com a boca cheia mesmo ou se fazia o sinal da cruz pra ela.
Rapaz, pra que isso?
Pode ter certeza de que se meu prato vier errado, eu vou chamar alguém e vou reclamar. Esse pró-ativismo no meio de um dos momentos mais grotescos do nosso dia não é algo saudável e tem que ser desencorajado nos restaurantes.


Postado no facebook em 04/03/20. Pra meu controle apenas... hehehehehehehe!

  I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour,...