Ai, credo. Que dia. Marilisa, você me deve dois dias de serviço por conta de hoje... Depois a gente conversa. O dia estava sendo bastante normal. Acordei cedo, fiz caminhada, ouvi música, cozinhei (arroz, feijão, suflê de espinafre, bife de alcatra, salada de alfacinha mimosa e shimeji na manteiga... ultra-inspirada pelo dia internacional da mulher - que fica na cozinha, claro), assisti filme (Dália Negra, nunca mais na minha vida: filme chato e que tenta imitar L.A. Cidade Proibida - tão desanimador que nem vi o final), tomei banhinho, sequei cabelos, me vesti e saí de casa pra trabalhar. No meio da via de acesso, o trânsito parou. Dali a pouco começou a chover. Levei meia hora para passar do começo do Terminal de Cargas até a portaria da Torre. Lá, eu tive que parar o carro e mostrar o crachá para uma meia dúzia de pessoas de profissões e nacionalidades diferentes. O guardinha usual, que me conhecia, dizia:
- Pode deixar passar, ela trabalha aqui.
Mas parece que o pequeno armário (um homem enorme) queria ter certeza disso olhando meu crachá duas vezes. Depois, quando entrei, tive que parar antes do estacionamento porque dois policiais federais conversavam exatamente no meio da rua (de um lado uma Blazer da Federal, e do outro vários carros pretos. Sim, era algo parecido com um funeral. Ou uma caça ao Beira-Mar). Desvia o Celtinha de cá, desvia de lá (deu impressão de ter passado muito perto do botão do uniforme do policial loirinho) , até que estacionei.
Pra descer do carro foi mais tranqüilo: apenas alguns rapazes do exército, carregando um tipo de arma que eu não conheço, olhavam desconfiados. Para entrar na recepção, mais uma vez mostrar o crachá para três seguranças. Passei o cartão com atraso e subi para o briefing. Atrasada, cheguei quando o Guita já dava as instruções de taxi que deveríamos dar ao Air Force One. Tudo normal até então.
Na torre, já havia um agente americano de prontidão, vestindo terno preto e usando aqueles foninhos de ouvido que o Carter pede aos agentes do F.B.I. em "A Hora do Rush" (inclusive tive a ligeira impressão de já ter visto este mesmo agente em algum filme parecido). Loiro, alto, de bigode e calvo. Típico agente do F.B.I. dos filmes. Ficou o tempo todo quieto, no canto. Quando o Myron chegou, ele veio pedir para nos brifar em relação ao Air Force One. Informou que a aeronave entraria na final e seria seguida, até o pouso, por dois Black Hawks. Um de cada lado do 747. E que durante toda a aproximação, pouso, taxi e desembarque da aeronave, ele não queria ninguém no terraço externo da torre. NINGUÉM NO TERRAÇO. Nos pediu para que só fôssemos ao terraço apenas depois que o presidente americano já tivesse saído do aeroporto em um dos carros da comitiva presidencial. Perguntou se todos tínhamos entendido o que ele havia falado, e concordamos. O Myron ainda reforçou em português: "todo mundo entendeu TUDO o que ele falou? Alguém tem alguma dúvida?". Todo mundo fez que não, todo mundo de acordo, começamos mais um típico pernoitinho. Os centros já começaram pesado com as restrições. Brasília passava os slots de decolagem, que muitos não conseguiam cumprir e tínhamos que coordenar tudo de novo. Curitiba mais tranquilo, cinco minutos entre as decolagens (a não ser Buenos Aires, de quinze minutos). Ah, saídas por Bragança de cinco minutos também. Sento na torre e em menos de dez minutos me chamam duas aeronaves do exército em missão presidencial, eu as autorizo sem saber quem são, para onde vão, nem se alocam algum código ou mesmo que frequência chamam após a decolagem. Mando chamar o controle, que fica uma arara comigo querendo saber as informações que eu não tinha acesso. Nesse meio tempo eu usava a esquerda para pouso e decolagem, já tinha feito dois side-step's por conta de separação, o solo pedindo para que eu não taxiasse ninguém pela bravo porque tinha um F.O.D. para ser retirado, eu sem condições de segurar o povo no back-track, sem pista, sem tempo, sem espaço... Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu já tava quase gritando com o primeiro que passasse na minha frente. Mas acabou dando certo. Quando fui para o tráfego, mais problemas: como o centro passava os slots de decolagem, eu tinha que confirmar com o piloto em questão se ele conseguiria decolar naquele tempo dado pelo centro. Todas as aeronaves que eu atendi nessas condições estavam falando inglês. E do solo voltavam estourando os slots, para que eu coordenasse um novo horário ou se os planos estavam válidos. Falei inglês por quase uma hora ali (o problema é que quando eu começo a falar muito inglês, eu começo a travar. Sim, como um trava-línguas. Falo "dregees" em vez de "degrees", "crear" em vez de "clear" e por aí vai...). Foi mais ou menos por aí que o AF1 pousou. Veio numa final longa, com os dois belíssimos helicópteros próximos à cabeceira para fazer a segurança. Pousou redondo, livrou, taxiou e parou na posição. Todo mundo (quase) parou o que estava fazendo para apreciar toda a operação. O 747 era lindo. Estacionou numa posição que deixava a gente ali na torre com uma vista privilegiada do jumbo. Eu só pensando nas fotos que tiraria assim que o acesso ao terraço fosse liberado. Então, quando vimos a escada já na posição para que a comitiva começasse a debandar do avião, vi uma coisinha loira do lado de fora da torre. Era a Kaline. "MALUCA", pensei. Corri os olhos nos telhados do terminal, procurando se tinha algum atirador de elite por ali... tudo escuro, não vi foi nada. Começamos a fazer sinal pra ela, e ela abanava a mão pra nós e ria, contente de estar lá fora e ser a única a fazer isso. O agente americano começou a perguntar alto para o Myron se ela era funcionária da torre, e colocava a mão no ouvido - como se estivesse recebendo mensagem de alguma outra pessoa pelo rádio. Myron respondeu que "sim" bem baixinho, incrédulo. Ele olhou assustado para o Myron, tipo "meu, tira ela de lá ou eu tiro... ou atiro, sei lá..."... O Myron quase berrou, pôs a mão na testa e gemeu. O agente americano, ainda com a mão no fone do ouvido, começou a dizer algo que eu imaginei que era como "hold your fire!! Hold your fire! Don't shoot!". Ali minha imaginação tava dando asas aos westerns americanos que eu assistia quando criança. Eu fazia gestos de "vem pra cá, sua maluca" pelo vidro, mas não sei porque razão ela só ria e abanava a mão. Quando viu minha cara de preocupada, com olhos arregalados, ela franziu o cenho e fez gesto de "porquê???". Mas só foi entender o que se passava depois de eu quase ter que passar o dedo pelo pescoço, indicando que ela seria degolada. Ela abaixou a cabeça e fez o caminho silenciosa, voltando para dentro. Quando ela entrou na torre, o americano a olhou como se ela fosse mesmo uma louca. O Myron quase a esganou. Ela ainda parecia não entender: "nossa, gente, pra que isso tudo?". Explicamos mas ela não pareceu entender o perigo que havia passado. E ela foi embora à meia noite sem acreditar que poderia realmente levar um tiro! Enfim, depois que a frota de mais de 40 carros saiu do aeroporto, o agente também foi embora e nós fomos à sacada para tirar fotos. Mas não vi a Kaline fazer isso.