Wednesday, August 27, 2008

A VIAGEM - parte 1

A tão esperada viagem teve seu início no dia 30 de julho de 2008, às 16h00, saindo da minha casa em direção ao aeroporto. Ao descer as escadas, a alça da minha mala arrebentou, o que me deixou neurótica, pois minha segunda mala estava com a Kaline lá na torre. Fui que nem uma doida ambulante trocar as roupas todas das malas, enquanto o César, Renata e Michelle iam para a fila do check-in da Tam. Quando os encontrei no terminal, a fila não tinha andando nem um centímetro sequer. Depois de alguns minutos, notamos uma certa afobação no balcão do check-in, com um casal falando mais alto do que o normal e a atendente balançando a cabeça e dando desculpas. O César logo se interessou: "Hum, bate-boca. Vou ver o que está acontecendo...". Voltou com a notícia que nosso vôo havia sido cancelado e que tentariam nos colocar no vôo mais tarde. Meu dia quase acabou... O vôo mais tarde não nos deixaria em Paris a tempo de pegar o outro vôo com destino a Londres, que compramos pela Air France e na promoção - ou seja: perdeu o vôo, adeus passagem. Por sorte a Air France endossou a nossa passagem de Paris a Londres e a Tam aceitou nos colocar no vôo direto para a capital britânica, mas com partida prevista só à meia-noite (lembre-se que chegamos ao aeroporto 16h30) e sem lugares juntos.
Fomos eu e minhas irmãs juntas e o César conseguiu uma poltrona atrás. O vôo foi meio chato e cansativo pra todo mundo, não conseguimos dormir quase nada - acho que é a excitação da viagem. No meu caso, era mais o receio de chegar na imigração inglesa e ser barrada - eu já imaginava até o policial me fazendo perguntas com aquele sotaque e eu gaguejando pra responder:
- Quantas libras você tem??? Só isso?! Tem cartão de crédito? Imaginei que não. Lovely. Get back to your country (mas falando um gát báck).
O fato é que não foi tão difícil assim. Fomos os quatro no mesmo guichê - afinal eu estava com todas as reservas de hotel, carro, tudo - e o policial conseguiu perguntar o seguinte:
- Quantos dias ficarão em Londres?
- Três dias.
- Qual o notivo da viagem?
- Férias.
- Para onde vão depois?
- Edimburgo.
- E depois?
- Paris.
Nisso, a policial do guichê ao lado me chamou para ajudá-la com uma passageira que estava com a família e que não falava inglês. Enquanto eu fazia a tradução, o "meu" policial carimbou nossos passaportes e assim que fui liberada, os três me aguardavam já no corredor do lado de dentro da Inglaterra. Ai, que emoção!
Aí, corre pegar metrô, desce próximo ao albergue, anda com pouquíssimas malas, atravessa a rua, encontra o albergue, faz o check-in, adora o local, aluga toalha, joga as malas em cima das camas, usa o banheiro, tranca o resto das libras no locker e ganha a rua de novo com uma mochila nas costas contendo a máquina fotográfica, guarda-chuva, papel higiênico e água. Adoramos o metrô de Londres. Limpo, confortável, dinâmico. Descemos ao lado do Parlamento, e ficamos ali no bairro durante horas observando tudo de diferente que o local tinha. A London Eye, a Abadia de Westminster, o ônibus de dois andares. Andamos feito ratinhos fugindo da chuva, e quando quase anoiteceu (isso lá pras dez horas da noite quase), estávamos em um charmoso restaurante italiano comendo massas e tomando Stella. E a Michelle na coca-cola. O garçom falava uma mistura de italiano com espanhol, o que me deixou meio perdida - eu queria mesmo era falar inglês, poxa. A Michelle se sentiu em casa e começou a dizer "si" para sim pra tudo, o que fez até o final da nossa viagem, como se o idioma oficial de todos os países da Europa fosse o espanhol. Essa noite chegamos ao albergue (fofo) e descobrimos que nossos dois colegas de quarto na verdade eram duas meninas: Julie, uma lourinha canadense que voltava de quarenta dias de trabalho voluntário em um hospital na Uganda (o que me deixou bastante desanimada com minhas escolhas sempre capitalistas na vida) e uma alemã chamada Suzana, que andava pelo quarto só de blusinha e calcinha sem se incomodar com a presença do César. Ah, Cesinha passou mal essa noite por causa da comida.
Ah, a droga da comida britânica. Será que o sal de lá é diferente do sal daqui? Eu comi uma baita macarronada com molho branco e camarões... totalmente sem tempero. Espremi uma fatia de limão no prato, nada. Tuxei sal, nada. Pimenta. Queijo ralado. Nada. Completamente sem tempero.
No nosso segundo dia em Londres conhecemos, além do que era previsto - Tower Bridge, London Tower, estádio do Arsenal - um pub londrino e a Guinness, que eu nunca havia tomado nem aqui no Brasil. Pedimos pra acompanhar o famoso "Fish and Chips", que veio num prato com ervilhas, mal frito e... sem tempero.
Esse mesmo dia nós fomos almoçar em um restaurante mexicano, porque daí teríamos pelo menos uma pimenta boa pra acompanhar o prato. Que nada!!! Arrozinho filho-da-mãe sem tempero!!!
No terceiro dia nós comemos crepe no Notting Hill, então não estava tão ruim nem sem tempero ao todo.
E à noite fomos pra rodoviária de Victoria pegar o ônibus pra Edimburgo. Cara, a rodoviária era um lixo. Um lugar estranho, com pessoas estranhas, meio sujo. Nós sentamos em uns banquinhos enquanto aguardávamos o horário do nosso ônibus. Acho que foi aqui que uma mulher perguntou ao César se ele era tcheco. Como os assentos não eram reservados, quando o ônibus parou na plataforma nós vimos a diferente cultura britânica se esvair pelos corredores em direção ao mesmo. Cultura diferente porque se é no Brasil todo mundo se acotovela e corre. E no final dá no mesmo. Porque lá, você via que eram turistas - a maioria - e que ninguém corria, mas dava passos largos e apertados, sem olhar pra trás, sem pegar na mão dos filhos, naquela pressa velada e contida de conseguir um lugar bom lá dentro. Eu fui toda brasileira mesmo:
- Renata, me dá sua mala, a Michelle dá a mala pro César. Vocês entram e seguram lugar pra nós.
Bom, o ônibus não era nem de longe confortável: poltronas apertadas, lotado e pra completar, havia uma criança chorando lá atrás. O cara que sentou no banco da frente da Renata falava sozinho enquanto dormia, enquanto o que estava atrás de mim arrotou alto. O ônibus fez três paradas antes de chegar em Edimburgo pela manhãzinha.
Mas uma coisa que eu achei impressionante: deixar Londres durante a noite. Foi à noite que eu vi que Londres é realmente bonita, porque durante os dias, nos nossos passeios, não a achei tão majestosa assim e muito menos atraente. Até comentei com as meninas: "Paris ainda é minha cidade preferida, muito mais bonita que Londres". Mas à noite... ver a cidade toda iluminada com um amarelo escuro foi fascinante.
A primeira imagem que eu guardei da Escócia quando abri os olhos dentro do ônibus foi o Mar do Norte banhando uma cidadezinha fria, cinza, verde e chuvosa. Foi amor à primeira vista. Tanto que não consegui dormir mais até o final da viagem. Chovia um pouco, depois saía um solzinho tímido - e voltava a chover. Uma chuva bem fininha, aconchegante. E eu com os olhos grudados no vidro, olhando as ondas fracas, a prainha vazia e os campos verdes. De vez em quando umas casinhas de pedra, onde eu imaginava que havia um pãozinho quente e um bule de café recém passado.
Mais alguns minutos de rodagem e chegamos a Edimburgo. Ficou registrado na minha memória como a "cidade das pedras escuras". Ali a chuva já caía com gosto, tanto que pegamos um táxi até o nosso albergue.
O grande susto de Edimburgo foi exatamente o albergue. Ambiente fedido e feio, mal cuidado, sujo, o quarto era estranho e nem estava limpo ainda quando chegamos para fazer o check-in. O chuveiro não esquentava e para dar a descarga você tinha que fazer um curso profissionalizante. O café da manhã era deprimente, com copos fedidos e pãozinho pobre. O César já não tinha mais do que reclamar, até pras camareiras ele tentou, mas elas não gostaram e responderam em alemão. Ou seja: nunca fique no Globetrotter Inns Edinburgh, por mais barato que seja. Vá, entretanto, um dia até lá só para conhecer seu quintal. Já essa foi a zebra do hotel: a localização. Embora longe do centro da cidade, fica numa encosta onde se vê o melhor pôr-do-sol pintando de laranja o mar. Ali a gente conseguia ficar horas sem se estressar. Aliás, desestressando.
Mas voltemos a Edimburgo: cidade da gaita de foles, capital do melhor país que eu já conheci (ok, brigando feio com o sul da Alemanha, mas isso eu comento depois), com seus escoceses usando kilt - César, me desculpe, mas eu acho um charme - e DA MELHOR COMIDA DO REINO UNIDO!!! Eba, até que enfim conseguimos comida que se preste na ilha! Nós - eu e a Michelle - pedimos um prato que não sabíamos direito o que era. Frango recheado com haggis. Você sabe o que é haggis? Não? Então coma primeiro e pergunte depois, exatamente como nós duas fizemos. "Hum, parece beringela...", mas não é. A garçonete tentou explicar mas não entendemos. Só fomos saber o que era no dia seguinte... Mas o importante é que estava simplesmente delicioso! O César e a Renata também foram felizes na escolha, ou seja: a comida escocesa é magnífica. Cervejinha mexicana pra acompanhar (eu tenho que ir ao México) e coca-cola pra Michelle.
Passeamos pela rua do Castelo de Edimburgo, a Royal Mile, e comemos sanduíche do Subway ouvindo trechos de peças de teatro, músicas celtas, explicações sobre uma câmara de tortura no meio da cidade e sentindo o friozinho do verão escocês com algumas gotinhas de chuva. No Castelo, ouvimos as músicas de gaita de foles enquanto famílias inteiras de kilt se preparavam para algum evento - na verdade já estava acontecendo um pré-festival do Festival Internacional de Edimburgo. A rua toda continha músicos, atores distribuindo panfletinhos com propagandas das suas peças a valores bem receptíveis e guias de turismo com seus grupos.
No dia seguinte nos recusamos a tomar o café precário do hotel e fomos numa excursão para o norte da Escócia. Passamos inicialmente pela cidade de Stirling, e de lá até a primeira parada, em Glen Coe, as nossas vistas (a minha pelo menos) se encheram de pastagens verdes, fazendas, castelos, pousadas, lagos (loch), e histórias trágicas da Escócia vindas do nosso áudio dentro do ônibus. De vez em quando o motorista chamava a nossa atenção para alguma coisa legal que o áudio pré-programado pela empresa ignorara. Como um bisão muito querido ganhando carinhos de turistas numa parada com restaurantes e lojinhas típicas. Nesse áudio, inclusive, nós soubemos que na Escócia todo um carneiro é utilizado na culinária, e não só a carne dele. O que outros povos jogam fora, na Escócia vira algum prato. Como o nosso haggis mencionado lá em cima: bucho de carneiro recheado com tripas, cozido e cortadinho em quadradinhos. Eu não como nem carneiro, quanto mais suas tripas. Morro de dó. Tanto que não comi mais haggis no resto na viagem...
O nosso motorista falava, como toda a Escócia, um inglês meio diferente do que eu estou acostumada a ouvir. Seu relojinho se chamava "Smiley", que ele pronunciava "ismeili", e não o meu habitual "ismaili". O "right" dele também se pronunciava "reit", e não "rait". Mas independente disso conseguíamos quase sempre entender o que ele falava.
Glen Coe possui, como toda a Escócia, uma vista outstanding, na falta de uma palavra melhor em português. De lá nós seguimos para Inverness, onde passamos pelo Lago Ness e paramos para almoçar. Almoço de primeira categoria de novo. Acho que os ingleses não sabem cozinhar. Comemos uma sopa típica (eu, a Mi e a Rê. O César sempre difere da gente), com um lanche de rúcula. Si, eles têm rúcula. E tomates, queijos e temperos no prato. Cervejinha Stella e coca pra Michelle...
Em Inverness nós tivemos uma paradinha rápida só para conhecer o ponto central mesmo. Quarenta minutinhos para conferir que a Escócia é acolhedora, bonita e mais barata que a Inglaterra.
A última parada foi numa cidadezinha que, mesmo depois de uma pequena aula de "escocês", não conseguimos pronunciar o nome: Pitlochry. Com sua rua principal carregada de lojinhas fofas, bed and breakfast's, restaurantes e sorveteria, Pitlochry é um charme. Infelizmente foi outra parada bem curta, e logo retomamos o caminho de volta à imponente Edimburgo, com seus prédios antigos de pedra escura.
Jantamos no mesmo restaurante do dia anterior, e eu comi um sanduíche de salmão defumado com queijo brie, com uma taça de vinho. Tudo espetacular (e grande demais, a Michelle teve que comer as batatas que acompanhavam meu sanduíche - e olha que eu como beeeem!) por menos de 9 libras.
Mais um fantástico pôr-do-sol no albergue/casa-do-espanto e no dia seguinte fomos ao aeroporto embarcar para Paris.
Ah, agora sim é minha praia, penso eu. Paris eu conheço bem, nunca me desapontaria... Ledo engano, caro leitor. A cidade estava simplesmente um lixo. Lotada. Não, abarrotada de turistas. Suja. Quente igual a Teresina no B R O bró. E cara demais. Fiquei chocada. Não era aquilo ali que eu queria mostrar pras minhas irmãs justificando "não disse que era mais bonita que Londres?". Nossa, um horror. Ali eu me senti uma parisiense que odeia turistas. Dei razão a eles. Metrô lotado, filas pra tudo e debaixo de um sol chato da porr... Não subimos no Funiculaire de Montmartre por conta da fila. Fomos de escadas, correndo pra fugir dos argelinos que fazem pulseiras e quase sem fôlego pra subir tudo aquilo no sol. Quando chegamos lá em cima, lotaaaaado, falei pras meninas suadas:
- Aqui é a porra da Sacre Coeur e lá está a bosta da vista de Paris.
Credo, não tinha vontade de ficar ali. Aquele bando de gente. Pra tirar foto da vista, tinha que esperar alguém sair da beirada da escada e se encostar no lugar. E como tem chinês, meu Deus. Ô povo feliz que viaja a rodo!!! Se bem que eles são ultra gentis e educados... E estão sempre rindo.
A torre Eiffel não decepciona nunca, embora a fila sim. Assim como fila pra comprar água, sorvete, coca-cola... Mas para o crepe não tem fila que me segure. À noitinha, comemos crepe em frente à torre, que estava toda iluminada de azul em comemoração da França como presidente da União Européia. Linda. E o crepe delicioso...
O passeio pela parte "traseira" da Catedral de Notre Dame, porém, mostrava um trecho da cidade não invadida pelos turistas e limpa. Foi ali que a Michelle constatou:
- Paris realmente é bonita.
Pena que não dava pra ver isso o tempo todo.
Acho que a melhor parte da viagem em Paris foi a noite em Saint Michel. Aquele bairro é muito charmoso, e talvez a falta do sol e do calor fez com que ficasse do mesmo jeito que nós conhecemos. Só a raclete que comemos que foi diferente da outra: não estava assim tão gostosa, mas enchemos a pança com a ajuda de um vinho de Creta muito bom.
De Paris nós pegamos o carro e viajamos até Colônia, mas daí pra frente eu conto noutro post.
Até mais!

  I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour,...