Vamos concordar que uma torre de controle desperta a
curiosidade de várias pessoas, não? Eu mesma nunca havia entrado em uma antes
de fazer o curso de controle de tráfego aéreo, mas sempre que meu pai me levava a Viracopos
aos domingos, ele apontava pra torrinha pintada de um quadriculado laranja e
branco e falava:
- Olha, ali é que fica o controlador de voo! Ele que
controla toda a movimentação dos aviões aqui!
E eu ficava olhando a torrinha, imaginando como seria lá
dentro. Mas nunca imaginei que meu pai poderia, naquela época, ter tentado
contato com o pessoal da Infraero e tentado uma visita pra gente.
Depois de muitos anos, já trabalhando em Guarulhos, vi o tanto
de gente que visita a torre. São entusiastas da aviação, estudantes do ramo,
tripulação ou funcionários de companhias aéreas. Normalmente eu não me irritava
com as visitas não, pelo contrário. Gostava de ver aquele tanto de gente
observando meu trabalho, me sentia importante. Nunca me senti diferente por
causa disso... diferente aqui eu digo em uma conotação um pouco bizarra: nunca
me senti um animalzinho estranho sendo observado numa jaula de zoológico, por exemplo.
Mas depois eu soube que alguns controladores se sentiam
dessa forma. Alguns colegas mais próximos relataram que não gostavam das
visitas porque se sentiam observados de uma maneira atípica, como se fossem
bichinhos exóticos.
Já teve vezes em que eu me irritei com visita sim. Uma vez
veio uma família, e um garoto de uns 8 anos subiu no pé giratório da cadeira em
que eu estava sentada, e ficou meio que pendurado atrás de mim se balançando.
Eu não abri a boca, continuei trabalhando e fingindo que o menino não estava
imitando um macaco mudo atrás de mim. Depois de um tempo apenas foi que a mãe
dele percebeu que ele deveria estar me incomodando e pediu para que ele parasse
de me balançar. Ele desceu da cadeira ressabiado. E eu continuei calada e trabalhando
normalmente.
Eu estava na torre no dia em que a Ana Maria Braga foi nos
visitar. Ficamos todos alvoroçados na cabine, todo mundo querendo saber se o
Louro José viria junto. Claro que eu queria o Louro José do programa, um
papagaio de espuma gigante voando pela torre, parando na mesa do supervisor e falando
besteira pra gente com aquela voz característica dele. Não queria vê-lo como um
baita fantoche na mão de um ser humano fazendo a vozinha dele. De qualquer maneira, ele não veio. Chegou apenas a Ana Maria com a equipe de
filmagem da Globo. Ela ficou surpresa de ver o tanto de mulher trabalhando
como controladoras e falou diretamente com a gente.
Equipes de televisão e revista também causavam furor na
torre. Para o bem e para o mal. Os controladores que gostavam de aparecer num
cantinho qualquer de um programa de televisão (como eu), logo se empolgavam com
a notícia das visitas. Os que se sentiam os bichinhos exóticos ou os que apenas
não gostavam dessa divulgação de imagem, logo se aborreciam. (Confesso que a
maioria fazia festa: pessoal vinha tudo bem vestido, de banho tomado e cabelo
aprumado pras câmeras). Minha primeira aparição na tv foi em um telejornal da TV
Bandeirantes. Não me lembro o teor da reportagem, mas eles gostaram de me
filmar dando uma instrução para o Air Canada em inglês e depois ficaram pedindo
para que eu gravasse o áudio da instrução de novo, para colocá-lo depois da
edição com a imagem. E eu fiquei lá, fingindo dar a mesma instrução umas quatro
vezes seguidas para que eles gravassem. Depois, quando vi a reportagem, vi que
eles apenas mostraram a imagem da minha pessoa bem rápido, sem áudio algum, e cortaram
logo para a imagem do Air Canada se movimentando no pátio. Foi quando imaginei
que talvez meu inglês aprendido com dona Neusa não causasse um impacto positivo
numa reportagem (talvez por isso mesmo o repórter tenha pedido para eu gravar
tantas vezes seguidas, e ainda assim provavelmente não tenha conseguido aproveitar nenhum take).
Também tive meu momento maquiadora, quando a revista Veja SP
foi nos visitar para fazer uma reportagem a respeito da nossa profissão. Eles
pediram para que o controlador mais antigo da torre desse a entrevista para a
revista, e tiraram algumas fotos dele. Porém, nosso controlador era calvo, e
em todas as fotos a careca dele refletia a iluminação do flash e atrapalhava.
Assim sendo, o pessoal da produção pediu se alguma das mulheres tinha pó compacto
na bolsa para que eles ajeitassem o problema. Eu tinha, e me ofereci para “cobrir”
o brilho da careca do meu colega. Fui passando o pó e ele desesperado gritando:
- Não me deixe com cara de maquiado não!!! Não me deixe cheio de pó!
Mas ficou bem sutil e ajudou a dispersar a luz do flash.
A foto dele foi capa da revista. A Veja não me mencionou
como maquiadora exclusiva... Só me chateio de lembrar que eu nunca guardei uma cópia dela pra
mim.
E era assim. Num dia era uma família esperando um voo,
noutro dia uma equipe de gravação, no outro estudantes de gastronomia. Nada me
afetava negativamente, pelo contrário. O único dia que talvez eu tenha me
sentido mais próximo de algo como um bichinho enjaulado foi quando recebemos um
grupo de umas 15 pessoas, e um controlador mais antigo, ao vê-los rodeando a
gente com olhares curiosos, falou alto:
- Por favor, não alimentem os controladores!!!