Tuesday, June 30, 2020

Visita na Torre



Vamos concordar que uma torre de controle desperta a curiosidade de várias pessoas, não? Eu mesma nunca havia entrado em uma antes de fazer o curso de controle de tráfego aéreo, mas sempre que meu pai me levava a Viracopos aos domingos, ele apontava pra torrinha pintada de um quadriculado laranja e branco e falava:
- Olha, ali é que fica o controlador de voo! Ele que controla toda a movimentação dos aviões aqui!
E eu ficava olhando a torrinha, imaginando como seria lá dentro. Mas nunca imaginei que meu pai poderia, naquela época, ter tentado contato com o pessoal da Infraero e tentado uma visita pra gente.
Depois de muitos anos, já trabalhando em Guarulhos, vi o tanto de gente que visita a torre. São entusiastas da aviação, estudantes do ramo, tripulação ou funcionários de companhias aéreas. Normalmente eu não me irritava com as visitas não, pelo contrário. Gostava de ver aquele tanto de gente observando meu trabalho, me sentia importante. Nunca me senti diferente por causa disso... diferente aqui eu digo em uma conotação um pouco bizarra: nunca me senti um animalzinho estranho sendo observado numa jaula de zoológico, por exemplo.
Mas depois eu soube que alguns controladores se sentiam dessa forma. Alguns colegas mais próximos relataram que não gostavam das visitas porque se sentiam observados de uma maneira atípica, como se fossem bichinhos exóticos.
Já teve vezes em que eu me irritei com visita sim. Uma vez veio uma família, e um garoto de uns 8 anos subiu no pé giratório da cadeira em que eu estava sentada, e ficou meio que pendurado atrás de mim se balançando. Eu não abri a boca, continuei trabalhando e fingindo que o menino não estava imitando um macaco mudo atrás de mim. Depois de um tempo apenas foi que a mãe dele percebeu que ele deveria estar me incomodando e pediu para que ele parasse de me balançar. Ele desceu da cadeira ressabiado. E eu continuei calada e trabalhando normalmente.
Eu estava na torre no dia em que a Ana Maria Braga foi nos visitar. Ficamos todos alvoroçados na cabine, todo mundo querendo saber se o Louro José viria junto. Claro que eu queria o Louro José do programa, um papagaio de espuma gigante voando pela torre, parando na mesa do supervisor e falando besteira pra gente com aquela voz característica dele. Não queria vê-lo como um baita fantoche na mão de um ser humano fazendo a vozinha dele. De qualquer maneira, ele não veio. Chegou apenas a Ana Maria com a equipe de filmagem da Globo. Ela ficou surpresa de ver o tanto de mulher trabalhando como controladoras e falou diretamente com a gente.
Equipes de televisão e revista também causavam furor na torre. Para o bem e para o mal. Os controladores que gostavam de aparecer num cantinho qualquer de um programa de televisão (como eu), logo se empolgavam com a notícia das visitas. Os que se sentiam os bichinhos exóticos ou os que apenas não gostavam dessa divulgação de imagem, logo se aborreciam. (Confesso que a maioria fazia festa: pessoal vinha tudo bem vestido, de banho tomado e cabelo aprumado pras câmeras). Minha primeira aparição na tv foi em um telejornal da TV Bandeirantes. Não me lembro o teor da reportagem, mas eles gostaram de me filmar dando uma instrução para o Air Canada em inglês e depois ficaram pedindo para que eu gravasse o áudio da instrução de novo, para colocá-lo depois da edição com a imagem. E eu fiquei lá, fingindo dar a mesma instrução umas quatro vezes seguidas para que eles gravassem. Depois, quando vi a reportagem, vi que eles apenas mostraram a imagem da minha pessoa bem rápido, sem áudio algum, e cortaram logo para a imagem do Air Canada se movimentando no pátio. Foi quando imaginei que talvez meu inglês aprendido com dona Neusa não causasse um impacto positivo numa reportagem (talvez por isso mesmo o repórter tenha pedido para eu gravar tantas vezes seguidas, e ainda assim provavelmente não tenha conseguido aproveitar nenhum take).
Também tive meu momento maquiadora, quando a revista Veja SP foi nos visitar para fazer uma reportagem a respeito da nossa profissão. Eles pediram para que o controlador mais antigo da torre desse a entrevista para a revista, e tiraram algumas fotos dele. Porém, nosso controlador era calvo, e em todas as fotos a careca dele refletia a iluminação do flash e atrapalhava. Assim sendo, o pessoal da produção pediu se alguma das mulheres tinha pó compacto na bolsa para que eles ajeitassem o problema. Eu tinha, e me ofereci para “cobrir” o brilho da careca do meu colega. Fui passando o pó e ele desesperado gritando:
- Não me deixe com cara de maquiado não!!! Não me deixe cheio de pó!
Mas ficou bem sutil e ajudou a dispersar a luz do flash.
A foto dele foi capa da revista. A Veja não me mencionou como maquiadora exclusiva... Só me chateio de lembrar que eu nunca guardei uma cópia dela pra mim.
E era assim. Num dia era uma família esperando um voo, noutro dia uma equipe de gravação, no outro estudantes de gastronomia. Nada me afetava negativamente, pelo contrário. O único dia que talvez eu tenha me sentido mais próximo de algo como um bichinho enjaulado foi quando recebemos um grupo de umas 15 pessoas, e um controlador mais antigo, ao vê-los rodeando a gente com olhares curiosos, falou alto:
- Por favor, não alimentem os controladores!!!

Sunday, June 28, 2020

Guididi versus o sexo masculino como vital

Muitas pessoas me perguntam se eu não sinto falta de um homem na minha vida. Eu sempre respondo, nessas ocasiões, um "sim, sinto. Quando aparece uma barata em casa eu surto, e nessa hora gostaria de ter um homem ali para matá-la". E não é mentira. A verdade é que não precisa ser um homem exatamente pra matar a barata; eu posso ter uma vizinha corajosa ou uma amiga a postos. Baratas me carregam de um pavor inexplicável e instantâneo.
Mas fora o fato das baratas, não consigo sinceramente pensar em outra razão pela qual eu PRECISE de um homem na minha vida.
Não estou sendo feminista e muito menos auto-suficiente. Também não bato na tecla irritante de que "todos os homens são iguais" ou "homem não presta pra nada". Não é nada disso. Gosto de homens; dos meus melhores e amados amigos, a maioria é homem. Apenas não acho que PRECISO de um homem pra minha vida ser completa como muitos pensam, só isso. Minha vida foi marcada por eventos que me levaram a essa independência, mesmo contra a minha vontade.
Quando eu era pequena, vivi - junto a minhas irmãs e minha mãe - momentos de terror na minha casa. Meu pai era esquizofrênico, e durante os surtos psicóticos que ele passava, ficava muito violento. Meu pai não era um homem corpulento e forte, mas nesses momentos (horas, dias na verdade) de surto, ele tinha uma força que nem 5 homens conseguiam dominar. Imagine essa força toda voltada para agredir minha mãe e para nos ameaçar a cada sermão bíblico que ele nos dava. Sim, porque as passagens bíblicas que ele mais gostava eram aquelas que contavam de pais matando os próprios filhos. Ouvíamos as passagens completamente aterrorizadas, imaginando o que viria a seguir. Quando ele conseguia pensar com mais malignidade, escondia uma faca de cozinha em algum lugar da sua roupa, e a revelava nalgum trecho mais oportuno do sermão, aumentando nosso terror. Todas essas vezes nós estávamos sozinhas, quatro pessoas femininas: uma mulher e três criancinhas. Por vezes estávamos apenas três; minha irmã caçula era escondida por minha mãe na casa de alguma vizinha - normalmente dona Mafalda, mulher forte e que parecia não ter medo do meu pai. Ela não entrava em nossa casa pra nos defender, mesmo por não conhecer totalmente a mente doente dele. Mas estava sempre a postos pra esconder minha irmã, e eventualmente minha mãe. Nessas horas éramos apenas eu e a Renata à mercê do louco.
Por muitas vezes eu desejei ter um irmão mais velho. Achava que uma figura masculina em casa nos salvaria, mostraria ao meu pai que ele não poderia nos ferir e agredir minha mãe. Porque meu próprio pai nos ensinou - e nos mostrou - que homem tem muita força física, enquanto nós mulheres temos o corpo frágil e nunca conseguiríamos dominá-lo.
Mas a figura masculina não existia ali, e os poucos homens a quem minha mãe gritou por socorro, nos abandonavam. Diziam não ser problema deles e que eles não poderiam fazer nada pra nos ajudar. Nos largavam lá, aterrorizadas, minha mãe sendo agredida fisicamente. Uma vez veio um tio - conversou com meu pai mas não conseguiu acalmá-lo. Quando tentou contê-lo fisicamente, não deu conta sozinho. E foi o máximo que conseguimos de ajuda dele. Os homens só ajudavam mesmo quando eram os meninos da guarda municipal que chegavam para ajudar a segurar meu pai e colocá-lo na ambulância com destino ao pronto socorro e futuramente uma internação em um hospital psiquiátrico. O problema eram as horas, os dias que se passavam até que conseguíssemos correr e achar um telefone para ligar no 192 e solicitar uma ambulância, sempre acompanhada do pedido "tragam a polícia junto porque ele está extremamente agressivo". Aí depois de alguns minutos chegava a caravan branca do pronto socorro, munida de um motorista e um enfermeiro homem, seguida pelo carro da guarda com alguns rapazes. E era a imagem que eu gravei: cinco homens, quatro homens, três homens e uma camisa de força para conter a fúria e a força do esquizofrênico. Antes desse mini exército, eram 4 mulheres franzinas que ficavam sob a mira daquelas mãos pesadas. Não, nunca teve um homem para nos salvar nos momentos de terror. Nunca teve um homem pra abraçar a gente e dizer "calma, vai dar tudo certo". Também não queria um irmão homem para segurar meu pai durante os ataques - porque sei que um homem sozinho não conseguiria. Mas é fato que meu pai abrandava a agressividade quando tinha algum homem perto. Parece que mesmo durante  o surto ele sabia distinguir quando ser machão e quando ser mais contido. Ele sabia que um homem tinha mais força que a gente e poderia ao menos tentar contê-lo, como fez esse tio meu. Quando a guarda chegava, a princípio ele se mostrava super calmo. Apenas quando anunciavam que o iriam levar ao hospital é que ele se revelava e se rebelava, tentando agredi-los. Aí era a força-tarefa para algemá-lo ou colocá-lo na camisa de força. E ainda ouvimos chegados perguntando: "mas porque sua mãe não se defende??". Ela se defendia e nos defendia, da forma que ela conseguia.
A primeira vez que vi minha mãe realmente conseguir se defender agressivamente dele foi uma vez em que ele a estava enforcando, o braço dele conferindo uma gravatada no pescoço dela, e ela o mordeu com força. Eu já tinha conseguido escapar e correr até o orelhão que tinha em frente ao Sesi e chamado a ambulância e a polícia, mas eles não chegavam. Entrei de novo na cozinha nesse momento em que ela o mordia. Ele não afrouxava de jeito nenhum. Vi o sangue escorrendo no braço dele, e ele não perdia a força. Peguei uma panela de pressão - única arma ao meu alcance - e já estava preparada para acertá-lo na cabeça (se preciso fosse), quando enfim ele a largou. Ela escorregou para se livrar do braço dele, e ele olhou o ferimento causado pelas mordidas dela. Olhou como se fosse algo extremamente inconcebível, e começou a reclamar: "olha só o que você fez no meu braço!!! Você me machucou!!". Não consigo esquecer a reação dele de surpresa e de indignação. Quando enfim a guarda chegou junto com a ambulância, ele só sabia mostrar o braço pra todo mundo, dizendo que a esposa o agrediu, chamando-a de louca. E todo mundo - todos os homens - olhando pra minha mãe e dizendo "calma, seu Luiz, vamos cuidar disso". Não sei o que pensaram da minha mãe - porque fora o motorista da ambulância que já o conhecia, o resto era sempre gente nova que vinha junto.
Com o passar do tempo, nós fomos crescendo e meu pai foi envelhecendo. Os ataques começaram a diminuir, até que passaram a ser apenas sermões religiosos para nos obrigar a seguir a mesma igreja que ele.
Saí de casa aos 23 anos e quando eu tinha 28 ele faleceu.
Durante todo o tempo em que meu pai esteve vivo, nós mulheres da casa Torsani-Fini desenvolvemos um senso forçado de independência masculina. Aprendemos que homens que protegem mulheres só existem nos livros e nos filmes. Na vida real, é cada um por si.
Quando meu pai morreu veio um outro tio meu querer dar lição de moral nas mulheres da casa Torsani-Fini e nos dizer o que deveríamos fazer. Isso no velório do meu pai. Aquilo me deixou alucinada, porque ele queria que nós o escutássemos e fizéssemos o que ele estava propondo apenas por ser homem. Porque na criação dele, ele aprendeu que o homem manda e as mulheres obedecem. E, afinal, agora éramos uma família só de mulheres, e precisávamos de um homem para colocar as coisas no lugar, claro! Fiquei revoltada, queria atacá-lo e perguntar "onde você estava quando nós REALMENTE precisávamos de um homem em casa??". A única vez que ele acatou o pedido da minha mãe para nos ajudar, marcou uma reuniãozinha na casa da minha avó, juntou apenas eu, minha mãe e minhas irmãs, e nos deu uma hora de bronca, dizendo que nós (as meninas) deveríamos ajudar mais a minha mãe em casa. Minha mãe ficou calada, nós ficamos caladas, eu ali achando que ele iria nos ajudar, nos ensinar alguma defesa pessoal, nos dizer que iria levar meu pai para longe da gente, falar que havia encontrado um puta hospital que cuidaria do meu pai. Mas não. O bonito apenas nos deu bronca. Eu deveria ter falado naquele dia o que eu pensei em dizer. Deveria ter falado "como você quer que eu ajude minha mãe nas horas que nos trancamos todas as quatro no quarto e escutamos meu pai bater na porta repetidas vezes para que ele entre e bata na minha mãe, ou pior; a mate?", ou "como ajudamos minha mãe quando ele tira uma faca enrolada em um pano de cozinha durante um picnic - arranjado por ele - e ameaça nos matar num parque vazio?", ou ainda "O que o senhor sugere como ajuda a minha mãe quando meu pai, com 1,75m, começa a surrá-la e nos empurrar para não atrapalhar a surra? Como exatamente 3 crianças com menos de 1,5m e menos de 40kg cada podem ajudar nessa hora?". Mas não falei nada disso. Nem na reuniãozinha na casa da minha avó e nem no velório do meu pai.  Nesse dia apenas o enfrentei com toda a doçura esperada de uma mulher brava e fizemos o que nós decidimos. Nós mulheres da casa Torsani-Fini. Sei que ele ajudou minha mãe em um momento financeiro que ela precisou. Mas isso não lhe dava o direito de fazer essas duas aparições ridículas na nossa vida.
Então, caro leitor, não. Eu não sinto que preciso de um homem na minha vida a não ser quando aparece uma barata na minha casa. Aprendi desde cedo que nenhum homem vai me salvar de nada, que eu tenho que ser forte e me defender sozinha de tudo e de todos. Que se eu mesma não me salvar, ninguém vai. E quando dizem "mas e um homem pra completar a sua vida?", eu digo "completar em que sentido? Está completa. E se eu precisar de alguma coisa que eu não sei fazer ou não tenho força física pra fazer, eu contrato alguém".
Em tempo: a casa está dedetizada. Entra morcego voando aqui direto mas já me acostumei. Quando aparecer uma barata eu grito.

  I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour,...