Thursday, September 15, 2022

 


I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour, Ankou, Sedna, Aita as in different mythologies. I really wanted a very Brazilian name, those like Josefa Silva, that made me feel sympathy for her, and not fear. Neither fear nor respect, because I didn't want to respect something that would take me from here to a magical world I didn't believe in, and therefore I didn't know anything about. I wanted a human name. A prosaic name: Seraphine. And Seraphine should be colorful too: no black veils wrapped around her thin body, bony hands gripping a tall scythe to pull me by the neck at departure as if I were a runaway chicken. Seraphine would be fat, chubby hands, red cheeks (from laughing), round brown eyes and a pointy caramel nose. Seraphine would wear a purple top hat, a long flame orange dress, moss green suede shoes. I would see her far away when she came to get me. There, I didn't have to fear a real, colorful person named Seraphine, who would come to meet me one day and take me out of here. I'd recognize her in a heartbeat, and I wouldn't have time to try to change her mind: Seraphine would be too charming for me not to want to go with her. The lively laugh, the warm colors, the seductive brown eyes. Seraphine would make me feel good.

I spent years waiting for Seraphine. At every corner, at every street crossed, at every sip of coffee sipped more willingly. With each orange cloth that passed before my eyes, a chill crept up my spine. I pressed my gaze for the other elements that would make Seraphine evident, but she was never there. Every loud, naked laugh, every fat hand full of creases, every green shoe. Seraphine has become the prince charming I've been waiting for every day. I couldn't work anymore, I couldn't live the joys of my days anymore. I didn't want to cross the streets anymore. I didn't want to sip my coffee anymore. Why didn't Seraphine want me? I shaped her, I created her, and she didn't want me. Every day she came to get someone; someone who happened to see her and hear her laugh, someone who felt the delicacy of her orange dress. But not me. Seraphine didn't want me. Tired of waiting for Seraphine, I went down to the main street. I waited to cross. As soon as I saw the bus around the corner, I crossed over so it couldn't stop. He didn't stop. I left. And still Seraphine didn't come to see me.

 

Thursday, March 24, 2022

Ela

 Ela nem sabe que eu escrevo. Ela não sabe dos meus contos, ela nunca soube das minhas redações nas aulas de português. Ela nunca soube como eu gosto de encontrar e agrupar as palavras formando crônicas e contando causos verídicos e inventados, a maioria para fazer alguém rir. Ela nunca se interessou por ler meu blog. Acho que ela nem mesmo sabe que eu mantenho um. Nunca soube das minhas notas altas em redação em concursos - e até mesmo naquela primeira fase passada na Unicamp, que nem eu mesma acreditei, visto que não estudava nada. Certeza que foi a culpa da redação. Uma narrativa que preencheu todas as folhas disponíveis e me custou todos os minutos dados para a prova. Fui uma das últimas a entregar; fato raro na minha vida de ansiosa.

Justo ela, que se diz leitora. Ela que parou de ler quando a vista não mais ajudava e se sentiu muito mal por isso, e que tanto se encheu de felicidade quando enfim conseguiu uma cirurgia e novas lentes que a fizeram recobrar a capacidade da leitura de letras miúdas. Ela, que tanto se interessa pela vida de todo mundo. Ela, tão preocupada com os problemas, com os anseios, com as conquistas das pessoas ao redor da vida dela.

Ela, que escrevia toneladas de cartas e nos fazia ler.

No mundo dela, a vida se resume a leituras diárias. Leituras de todos os tipos de textos que se pode imaginar: curtos, grossos, longos, corretos, mal-educados, sem pontuação. E elas os lê. Todos. Menos os meus. Porque ela não sabe que eu os escrevo, e ela não se interessa por saber disso. 

Wednesday, March 23, 2022

Quando eu achei que estava dando uma de esperta no Lago Titicaca

 

Eu já saí de La Paz passando mal por conta da altitude: 4100 metros acima do nível do mar me deixaram extremamente fadigada. Não tive enjoo como muita gente tem, nem dor de cabeça e falta de ar. Acordava durante a noite e logo voltava a dormir, mas me faça andar naquele lugar para você ver o quanto eu aguento nos primeiros dias com mal de altitude...

De La Paz pegamos o ônibus que vai a Copacabana. A viagem dura 4 horas e é recheada de paisagens lindas. Já em Copacabana, pegamos o barquinho que vai a Isla del Sol, que dura 1 hora de viagem até então tranquila.

Bom, nós escolhemos ficar na Pousada Pallakhasa depois de ler alguns blogs na internet indicando as melhores hospedagens na ilha. Escolhemos esse devido a um post bem bacana de uma garota que dizia que lá tinha a vista mais linda do Titicaca (e ela tinha razão), e que o chato era que a pousada ficava um pouco longe: meia hora de caminhada pós desembarque no “portinho” da ilha. Ora, meia hora para mim era tranquilo de andar. Só que eu já não levei meia hora. Lembra que falei que eu estava extremamente fadigada? Então. Levei uma hora e meia. UMA HORA E MEIA andando, subindo degraus, parando, respirando, voltando a andar dois metros, parando, respirando. Minha irmã fumante ia lá na frente, de boas, me atiçando “vamos Guididiiiiii!”, e eu morrendo. Uma hora e meia depois chegamos. Na pousada fomos recebidos com chá de folhas de coca e com o visual mais lindo dessa terra: o azul magnífico do lago.


Sentamos nos bancos do terracinho e apreciamos o chá e a vista. Guardamos nossos pertences no quarto e voltamos para fora. Conversamos com os donos da pousada, que nos disseram que poderíamos fazer a caminhada para a outra ponta da ilha para vermos as ruínas incas que lá se encontravam. Perguntei logo “mas quanto tempo dura essa caminhada?”, e eles me responderam que seriam duas horas para ir mais duas horas para voltar. A bonita aqui ainda considerou. Falei com meus companheiros de viagem e todos concordaram em ir até lá. Mochila com água e bolacha nas costas, começamos nossa peregrinação em busca das ruínas incas. Andamos uns 10 minutos e passamos pelo “pedágio” que a comunidade pede aos viajantes para adentrarem aquela área. 


Pagamos e continuamos por mais 10 minutos. Aí eu parei para respirar e descansar, e foi então que eu tive um tipo de esclarecimento: para quem que eu queria me mostrar? O que que eu estava querendo provar indo fazer uma caminhada de 4 horas sendo que eu sabia que eu não iria aguentar nem a metade dela? Pra que que eu estava inventando aquela merda toda? Virei para meus companheiros e falei:

- Gente, não sei por que inventei isso, mas eu não vou dar conta de fazer essa caminhada não...

Eles aquiesceram na hora: todo mundo falando que só estava caminhando porque eu havia proposto aquela ideia imbecil, mas que todo mundo estava cansado querendo só apreciar o visual da varanda da pousada.

Voltamos pelo mesmo caminho. O pessoal da comunidade indígena do “pedágio” começou a rir quando nos viu voltando. Perguntaram se tínhamos desistido. “Óbvio que sim”, me deu vontade de responder. Chegamos de volta à pousada e os donos também vieram perguntar o que havia acontecido. Olha, vou dizer a vocês: não me senti nem um pouco mal contando a verdade. FOI PORQUE EU TIVE UMA IDÉIA DE JERICO, só isso. Olha pra minha cara; todo mundo sabe que eu JAMAIS conseguiria transpor aquela caminhada em duas horas. Eles começaram a rir e disseram que um grupo de italianos havia saído cedo da pousada para o mesmo trajeto e que ainda não haviam retornado, então eu fui prudente em voltar porque já eram umas quatro da tarde e pegaríamos muito frio na volta.

Sentamos de novo na varanda e esperamos. Quando já eram umas cinco da tarde, o grupo italiano chegou da caminhada. Começamos a conversar e adivinhem? Os italianos levaram SETE HORAS para ir e voltar do passeio. Três horas e meia por trajeto. Quanto tempo vocês acham que EU iria levar se tivesse continuado com a maluquice?? Umas 10 horas pelo menos. Ou seja: iríamos passar a madrugada ou andando ou jogados nalgum canto no meio das árvores, morrendo de frio se me conheço bem. Ainda bem que não fomos.

O dono da pousada então veio com uma idéia mirabolante de como poderíamos ver as ruínas sem andar aquilo tudo: ele recomendava um passeio de barco dali onde estávamos até a outra ponta da ilha. Daí, segundo ele, seria mais rápido, teríamos que subir algumas escadas lá na ponta da ilha e pronto, veríamos as ruínas.

Tcharam!! A salvação!! Veríamos as ruínas sem andar muito! Me achei super esperta e queria rir dos italianos nessa hora.

O único problema seria acordar muito cedo no dia seguinte.

 

Na verdade, esse não foi nem de longe um problema: a vista do céu estrelado começando a amanhecer só me mostrou o quão mais linda aquela vista da pousada poderia ficar. 



Um dos primeiros problemas se mostrou logo após o “acordar muito cedo”: a descida até o portinho da pousada. Era uma baita de uma descida íngreme e eu quase chorei quando vi o que teria que descer. Aquele medo latente de cair e sair rolando por entre meus amigos e o guia e a vergonha de ter que terminar o passeio depois de quebrar uma perna ou um braço fizeram meu desespero aguçar e eu saí toda troncha. Fotografei a descida toda tremendo. Praticamente todas as fotos saíram ruins. Depois de meia hora descendo, escorregando, galopando, chegamos ao barquinho.

Aí veio o segundo problema: o lago Titicaca estava bravo (provavelmente porque nós cortamos caminho por ele e não seguimos a trilha oficial das ruínas) e nos castigou com muitas batidas de água no nosso barquinho. Ainda bem que de cara eu já tinha tomado um plasil e estava com o estômago no lugar, porque foi feio. Aquele barquinho balançou tanto, minha gente, que resolvi, de novo, mostrar que poderia acalmar meus companheiros (quando eu mesma estava apavorada). Virei para o guia que pilotava o barquinho e falei:

- É normal essas batidas, né? Digo, o lago estar bravo assim?

Ele, com cara de assustado, respondeu:

- Não é normal não, não sei por que está assim hoje.

Já saí logo distribuindo plasil para todo mundo. Queria mesmo era distribuir santinhos com orações, mas não tinha nenhum ali. Fiquei foi indignada com o menino. Acho que ele poderia ter nos acalmado com um simples “sim, é super normal” enquanto puxava seu tercinho para rezar. Mas não, preferiu me deixar com mais medo.

Enfim chegamos à ponta da ilha e subimos as escadarias para ver as ruínas. Nada de mais (nessa hora eu já nem estava mais curtindo o passeio), olhamos, xingamos os Incas (porque essa mania de construir cidade tudo nas alturas??? Pelamor, né?), descemos e voltamos para o barquinho da morte. Dessa vez a volta seria mais rápida porque pararíamos num outro portinho, onde uma van nos esperava para nos levar de volta a Copacabana.




Daí veio o terceiro problema. A van estava já com os italianos todos da pousada esperando por nós. Sentamos nos primeiros bancos e o guia foi na frente com o motorista. Eis que estávamos subindo um trecho bem estreito de estrada (de um lado montanha e do outro lado penhasco, bem típico nessa região da Bolívia), quando um dos meus amigos grita:

- Esqueci minha câmera no barquinho!!

Motorista parou a van e começou a fazer uma manobra de 180º para voltarmos ao portinho. O problema é: vocês lembram que eu disse que a estradinha era estreita, não é? Pois bem. Aquele motorista suicida começou a dar ré na van bem no lado do penhasco. Sabe aqueles filmes ou vídeos que vemos “estradas mortais”? Ou “estradas mais perigosas do mundo”? Parecia que eu estava em um desses. O motorista deu tanta ré que achamos que íamos cair no penhasco. Começamos a falar um “stop” gentil para ele e no fim estávamos como que em um filme de terror berrando “STOOOOP!!!”. Ele parou, olhou pra gente como se nós que fôssemos doidos. Eu, do banco do meio da van, já estava vendo as lhamas lá embaixo do penhasco. Imagino o que os italianos (sentados lá no fundão) estavam vendo já. Acho que estavam vendo Jesus, com aquela luz por trás, chamando “venham, filhos”.

Por fim o motorista parou a ré mortal, voltou a van nos trilhos e nos levou de volta ao portinho. Meu amigo pegou sua câmera e seguimos o restante da viagem normalmente até Copacabana.

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