Eu já saí de La Paz passando mal
por conta da altitude: 4100 metros acima do nível do mar me deixaram
extremamente fadigada. Não tive enjoo como muita gente tem, nem dor de cabeça e
falta de ar. Acordava durante a noite e logo voltava a dormir, mas me faça andar naquele lugar para você ver o quanto eu aguento nos primeiros dias com
mal de altitude...
De La Paz pegamos o ônibus que
vai a Copacabana. A viagem dura 4 horas e é recheada de paisagens lindas. Já em
Copacabana, pegamos o barquinho que vai a Isla del Sol, que dura 1 hora de
viagem até então tranquila.
Bom, nós escolhemos ficar na Pousada Pallakhasa depois de ler alguns blogs na internet indicando as melhores hospedagens na ilha. Escolhemos esse devido a um post bem bacana de uma garota que dizia que lá tinha a vista mais linda do Titicaca (e ela tinha razão), e que o chato era que a pousada ficava um pouco longe: meia hora de caminhada pós desembarque no “portinho” da ilha. Ora, meia hora para mim era tranquilo de andar. Só que eu já não levei meia hora. Lembra que falei que eu estava extremamente fadigada? Então. Levei uma hora e meia. UMA HORA E MEIA andando, subindo degraus, parando, respirando, voltando a andar dois metros, parando, respirando. Minha irmã fumante ia lá na frente, de boas, me atiçando “vamos Guididiiiiii!”, e eu morrendo. Uma hora e meia depois chegamos. Na pousada fomos recebidos com chá de folhas de coca e com o visual mais lindo dessa terra: o azul magnífico do lago.
Sentamos nos bancos do terracinho e apreciamos o chá e a vista. Guardamos nossos pertences no quarto e voltamos para fora. Conversamos com os donos da pousada, que nos disseram que poderíamos fazer a caminhada para a outra ponta da ilha para vermos as ruínas incas que lá se encontravam. Perguntei logo “mas quanto tempo dura essa caminhada?”, e eles me responderam que seriam duas horas para ir mais duas horas para voltar. A bonita aqui ainda considerou. Falei com meus companheiros de viagem e todos concordaram em ir até lá. Mochila com água e bolacha nas costas, começamos nossa peregrinação em busca das ruínas incas. Andamos uns 10 minutos e passamos pelo “pedágio” que a comunidade pede aos viajantes para adentrarem aquela área.
- Gente, não sei por que inventei
isso, mas eu não vou dar conta de fazer essa caminhada não...
Eles aquiesceram na hora: todo mundo falando que só estava caminhando porque eu havia proposto aquela ideia imbecil, mas que todo mundo estava cansado querendo só apreciar o visual da varanda da pousada.
Voltamos pelo mesmo caminho. O pessoal da comunidade indígena do “pedágio” começou a rir quando nos viu voltando. Perguntaram se tínhamos desistido. “Óbvio que sim”, me deu vontade de responder. Chegamos de volta à pousada e os donos também vieram perguntar o que havia acontecido. Olha, vou dizer a vocês: não me senti nem um pouco mal contando a verdade. FOI PORQUE EU TIVE UMA IDÉIA DE JERICO, só isso. Olha pra minha cara; todo mundo sabe que eu JAMAIS conseguiria transpor aquela caminhada em duas horas. Eles começaram a rir e disseram que um grupo de italianos havia saído cedo da pousada para o mesmo trajeto e que ainda não haviam retornado, então eu fui prudente em voltar porque já eram umas quatro da tarde e pegaríamos muito frio na volta.
Sentamos de novo na varanda e
esperamos. Quando já eram umas cinco da tarde, o grupo italiano chegou da
caminhada. Começamos a conversar e adivinhem? Os italianos levaram SETE HORAS
para ir e voltar do passeio. Três horas e meia por trajeto. Quanto tempo vocês
acham que EU iria levar se tivesse continuado com a maluquice?? Umas 10 horas
pelo menos. Ou seja: iríamos passar a madrugada ou andando ou jogados nalgum
canto no meio das árvores, morrendo de frio se me conheço bem. Ainda bem que
não fomos.
O dono da pousada então veio com
uma idéia mirabolante de como poderíamos ver as ruínas sem andar aquilo tudo:
ele recomendava um passeio de barco dali onde estávamos até a outra ponta da
ilha. Daí, segundo ele, seria mais rápido, teríamos que subir algumas escadas
lá na ponta da ilha e pronto, veríamos as ruínas.
Tcharam!! A salvação!! Veríamos as
ruínas sem andar muito! Me achei super esperta e queria rir dos italianos nessa
hora.
O único problema seria acordar muito
cedo no dia seguinte.
Na verdade, esse não foi nem de
longe um problema: a vista do céu estrelado começando a amanhecer só me mostrou
o quão mais linda aquela vista da pousada poderia ficar.
Um dos primeiros problemas se mostrou logo após o “acordar muito cedo”: a descida até o portinho da pousada. Era uma baita de uma descida íngreme e eu quase chorei quando vi o que teria que descer. Aquele medo latente de cair e sair rolando por entre meus amigos e o guia e a vergonha de ter que terminar o passeio depois de quebrar uma perna ou um braço fizeram meu desespero aguçar e eu saí toda troncha. Fotografei a descida toda tremendo. Praticamente todas as fotos saíram ruins. Depois de meia hora descendo, escorregando, galopando, chegamos ao barquinho.
Aí veio o segundo problema: o
lago Titicaca estava bravo (provavelmente porque nós cortamos caminho por ele e
não seguimos a trilha oficial das ruínas) e nos castigou com muitas batidas de
água no nosso barquinho. Ainda bem que de cara eu já tinha tomado um plasil e
estava com o estômago no lugar, porque foi feio. Aquele barquinho balançou
tanto, minha gente, que resolvi, de novo, mostrar que poderia acalmar meus companheiros
(quando eu mesma estava apavorada). Virei para o guia que pilotava o barquinho
e falei:
- É normal essas batidas, né?
Digo, o lago estar bravo assim?
Ele, com cara de assustado,
respondeu:
- Não é normal não, não sei por
que está assim hoje.
Já saí logo distribuindo plasil para
todo mundo. Queria mesmo era distribuir santinhos com orações, mas não tinha
nenhum ali. Fiquei foi indignada com o menino. Acho que ele
poderia ter nos acalmado com um simples “sim, é super normal” enquanto puxava
seu tercinho para rezar. Mas não, preferiu me deixar com mais medo.
Enfim chegamos à ponta da ilha e
subimos as escadarias para ver as ruínas. Nada de mais (nessa hora eu já nem
estava mais curtindo o passeio), olhamos, xingamos os Incas (porque essa mania
de construir cidade tudo nas alturas??? Pelamor, né?), descemos e voltamos para
o barquinho da morte. Dessa vez a volta seria mais rápida porque pararíamos num
outro portinho, onde uma van nos esperava para nos levar de volta a Copacabana.
Daí veio o terceiro problema. A
van estava já com os italianos todos da pousada esperando por nós. Sentamos nos
primeiros bancos e o guia foi na frente com o motorista. Eis que estávamos
subindo um trecho bem estreito de estrada (de um lado montanha e do outro lado
penhasco, bem típico nessa região da Bolívia), quando um dos meus amigos grita:
- Esqueci minha câmera no
barquinho!!
Motorista parou a van e começou a
fazer uma manobra de 180º para voltarmos ao portinho. O problema é: vocês lembram
que eu disse que a estradinha era estreita, não é? Pois bem. Aquele motorista
suicida começou a dar ré na van bem no lado do penhasco. Sabe aqueles filmes ou
vídeos que vemos “estradas mortais”? Ou “estradas mais perigosas do mundo”?
Parecia que eu estava em um desses. O motorista deu tanta ré que achamos que
íamos cair no penhasco. Começamos a falar um “stop” gentil para ele e no fim estávamos
como que em um filme de terror berrando “STOOOOP!!!”. Ele parou, olhou pra
gente como se nós que fôssemos doidos. Eu, do banco do meio da van, já estava vendo
as lhamas lá embaixo do penhasco. Imagino o que os italianos (sentados lá no
fundão) estavam vendo já. Acho que estavam vendo Jesus, com aquela luz por
trás, chamando “venham, filhos”.
Por fim o motorista parou a ré
mortal, voltou a van nos trilhos e nos levou de volta ao portinho. Meu amigo
pegou sua câmera e seguimos o restante da viagem normalmente até Copacabana.
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