Eu queria um nome bonito para a morte. Mas eu queria um nome simples, fácil, comum. Não queria chamá-la de Dona Morte. Morte, A Hora, Ankou, Sedna, Aita como em diferentes mitologias. Eu queria um nome bem abrasileirado mesmo, daqueles bem Josefa do Amaral Silva, que me fizessem ter simpatia pela dita, e não medo. Nem medo e nem respeito, porque eu não queria respeitar algo que me levaria daqui pra sempre para um mundo do qual eu não acreditava, e, portanto, não sabia nada a respeito. Queria um nome de gente. Um nome prosaico: Serafina. E Serafina também deveria ser colorida: nada de véus pretos enrolados pelo corpo magro, mãos ossudas segurando uma foice alta para me puxar pelo pescoço na hora da partida como se eu fosse uma galinha fugitiva. Serafina seria gorda, mãos cheias de dobrinhas, bochechas vermelhas de tanto dar risada, olhos castanhos redondos e nariz caramelo pontudo. Serafina usaria um chapéu alto roxo, um vestido longo laranja fogo, sapatos de camurça verde musgo. Eu a enxergaria bem de longe quando ela viesse me buscar. Pronto, eu não precisava temer uma pessoa real, colorida, chamada Serafina, que viria algum dia ao meu encontro e me tiraria daqui. Eu a reconheceria num piscar de olhos, e não teria tempo de tentar fazê-la mudar de idéia: Serafina seria encantadora demais para que eu não quisesse acompanhá-la. A risada viva, as cores quentes, os olhos castanhos sedutores. Serafina faria com que eu me sentisse bem.
Passei anos esperando Serafina. A cada esquina, a cada rua atravessada, a cada gole de café sorvido com mais vontade. A cada tecido cor de laranja que passava diante dos meus olhos, um frio se alastrava pela minha espinha. Eu pressionava o olhar em busca dos outros elementos que evidenciariam Serafina, mas ela nunca estava lá. A cada risada alta e nua, a cada mão gorda cheia de dobrinhas, a cada sapato de camurça verde musgo. Serafina se tornou o príncipe encantado que eu esperava todos os dias. Eu não conseguia mais trabalhar, não conseguia mais viver as alegrias dos meus dias. Não queria mais atravessar as ruas. Não queria mais sorver goles de café. Porque Serafina não me queria? Eu a moldei, eu a criei, e ela não me queria. Todos os dias ela vinha buscar alguém; alguém que passava a vê-la e a ouvir sua risada, alguém que sentia a delicadeza de seu vestido laranja. Mas não eu. Serafina não me queria. Cansada de esperar Serafina, desci até a rua principal. Esperei para atravessar. Assim que avistei o ônibus virando a esquina, atravessei, de modo que ele não conseguisse parar. Ele não parou. Eu parti. E ainda assim Serafina não veio me ver.