Thursday, November 19, 2009

Uma rajada de vento...

...assusta os poucos moradores do bairro Conturón, rodeado de casas sujas pela terra vermelha da seca provinda do calor que castiga a população pobre e ordinária. Palitos de sorvetes mordidos, papéis de picadão amarelados pelo fumo rodopiam com o balançar dos moinhos provocados pela ventania repentina. Um passarinho avoa em direção aos galhos ressequidos mais próximos, assustado com a provável calamidade que se aproxima. Uma senhora carrega um pequeno embornal e se vira ao ouvir o galopar lento e cansado do cavalo cinzento que se aproxima. Uma espora gira, quebrando o uivo do vento seco. A senhora cospe no chão vermelho e pragueja.
- Mierda...
O cavaleiro veste uma túnica preta, e tira o chapéu de palha roxo antes de apear o cavalo que solta um relincho estressado. Don Pepe bate com as botas encardidas no chão seco, mais para irritar a senhora praguejenta do que tirar a poeira acumulada.
- Vá te andando, dona Conchita, que meu assunto aqui não é com você. Estou doente demais para isso.
Dona Conchita, a velha do cuspe, franze o cenho:
- Doente tô eu, Pepe! Ninguém nessa cidade é mais doente do que eu!! Eu vivo há 60 anos com doenças incuráveis e ninguém nunca deu a mínima!
Pepe escarra:
- Pois saiba que o doutor Carlos Daniel afirmou por meio da ortomolecularlologia que eu estou mais doente do que Moisés ao atravessar o rio Nilo...
- Mar Vermelho, catso - replica Conchita, soltando uma baforada de charuto cubano falsificado em don Pepe.
- Anda, mulher, que eu tenho assuntos a resolver com Sole! - e Pepe empurra a velha resmunguenta, a fim de abrir a portinhola da casa vermelha da esquina em que estão.

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  I wanted a pretty name for the death. But I wanted a simple, easy, common name. I didn't want to call her Miss Death. Death, The Hour,...