Amanhã é dia de festa... casamento na família... festa... cerveja... missa... tias cochichando... e a gente rindo de quase se matar!
Só me lembro do casamento do meu primo Tato, em Campinas. Foi um dos episódios mais engraçados que eu já vivenciei. Lembro que ainda namorava o Fabiano, e nós alugamos uma van para nos levar à igreja.
Bom, primeiramente eu devo dizer que venho de uma família absolutamente católica. Mas, contudo, porém, entretanto, as coisas na vida nem sempre se encaixam totalmente no padrão de perfeição que toda família gostaria de viver, e eis que este meu primo ia se casar com uma garota extremamente gente fina da igreja Presbiteriana. Daí você pode começar a imaginar o bico de insatisfação da minha avó-quase-beata. E o casamento seria, portanto, dentro de uma igreja presbiteriana.
Em segundo lugar, estávamos no início de um maldito projeto "rótula" em Campinas, o qual eu não entendi até hoje, mas como faz muito tempo que eu não vou a Campinas, não posso dizer se o tal projeto de inversão de mãos de direção das ruas do centro permanece até hoje ou não, e nem mesmo posso dizer se foi uma realização que facilitou a vida dos campineiros ou não. Só sei que naquela noite este projeto se transformou no segundo objeto do capeta para irritar os calorosos passageiros daquela van a caminho da igreja (o primeiro objeto foi não haver casamento na igreja católica).
Então... seguimos desnorteados, sem rumo, por aquele labirinto de ruas até que pudéssemos achar uma única via que nos desse mão para chegarmos à droga da igreja. Os pneus da van consumiam os ponteiros do relógio, e logo percebemos que assim que a noiva estivesse entrando na igreja, a van chegaria despejando os convidados mais barulhentos que a Terra já viu, e eu logo imaginei a minha santa avó (que Deus a tenha, de verdade), irritada e tinindo igual um guaxininzinho com o rabinho pisoteado, entrando na igreja e praguejando porque a noiva não a esperou. Enquanto tentávamos ajudar o motorista da van (a princípio meio arisco, temendo levar um esporro das tias e avó por não saber o caminho), escutávamos a discussão lá atrás:
- (voz da tia Lourdes) Mas será que a gente chega hoje???
- (voz da minha vó) Ah, eu num sei, viu Lurde. O Nando, o Nando me convidou pra vir com ele. Eu devia ter aceitado.
- (voz da tia Lourdes) Ah, mas porque a senhora não foi com eles, mãe? A senhora que nos atrasou!
- (voz da vó, irritadérrima) EU??? Eu não atrasei ninguém! Olha só: na volta, eu volto com o Nando.
- (voz da tia Lourdes) Ah, foi a senhora, sim. Agora a gente tá aqui, rodando igual capivara, sem sair do lugar. Daqui a pouco a noiva vai chegar...
- (voz de alguém...) É, a noiva vai chegar antes da gente!
- (voz da vó) A noiva não vai entrar não. Ela espera a gente. Eu devia ter vindo com o Nando. Ele me convidou.
- (maior zoeira lá atrás) Aiiiii! Porra, pára de falar!!!
- (voz da tia Maria, quase um sussurro) Ai, meu cabelo.
- (voz da tia Lourdes) Ah, é, sim, a noiva já deve tá chegando lá! E a gente aqui, rodando.
- (voz da vó) Na volta eu venho com o Nando. Eu devia ter vindo com ele.
- (voz do Luzmar) Ai, pessoal, pelo amor de Deus! A gente já tá chegando... (nesse momento percebi a posição geográfica do Luzmar: desconfortavelmente entre minha vó e a tia Lourdes).
- (voz da tia Lourdes) Alá, vira à esquerda, agora! Não deu mão??? Mas era aqui, sim!!!
- (voz da Renata) Kkkkkkkkkk!!!!
- (voz da vó) Se eu tivesse vindo com o Nando, eu já estaria lá. O Nando já deve ter chegado...
- (voz de alguém extremamente estressado com a vó) Put#$@ que pariu, volta então com a porra do Nando, que saco!!!
À essa altura, eu já ria, o Fabiano já ria e até o motorista da van ensaiava um sorriso tímido.
- Bem vindo à minha família - falei, orgulhosa. - Todo domingo é assim.
O casamento transcorreu na maior alegria imaginável (chegamos alguns minutos antes da noiva), a noiva estava linda, o noivo estava emocionado (nunca ninguém tinha visto o Tato emocionado, foi... emocionante), o sermão foi interessante. Ao final da cerimônia, fomos até o salão onde seria realizada a festa. Como em todas as festas, havia vários vasinhos de enfeites em cima das mesas, e vários vasões de plantas nos cantos do salão. Normalmente, quando acaba a festa, alguns convidados nada envergonhados passam a mão nos enfeites de mesa e os levam para casa - não que isso seja errado, no meu próprio casamento fiquei feliz que os levaram embora, sinal que gostaram dos arranjos que eu mesma e minhas irmãs fizemos. O que não esperávamos de maneira nenhuma era chegar à van e perceber que minha tia e minha vó haviam roubado os vasões do salão, cheio de folhagens já altas, e enfiando os tais na van (eles ocupavam o lugar de umas três pessoas, no mínimo. E a pressa com que elas enfiavam os vasos no veículo era assustador. A impressão era que os seguranças do salão de festas estavam com rádios atrás dos suspeitos de terem sequestrado as plantas.
- Vai, puxa o vaso...
- Empurra que cabe.
- Isso, põe lá no canto.
- Ô Luzmar, dá pra você ir um pouco pra lá pra caber o vaso???
- Mas que droga, mãe! Tira essa planta da minha cara!
- Ô, saco, será que dá pra gente ir embora?
- Put#@$ que pariu, vocês roubaram os vasos do salão???
- Ninguém roubou nada, isso aqui é pros convidados...
- Que convidado nem aqui nem na China... Os vasos para os convidados são esses daqui, ó, pequenos. Os que estavam em cima da mesa.
- Ai, eu não quero nem ver. Eu não vi nada, não peguei em nada, não tem minha impressão digital aí.
- Mas dá pra vocês pararem com isso e me ajudarem a colocar esses vasos aí?
- Ei, dá licença que eu quero sentar.
- Ué, vó! A senhora não falou tanto que ia com o Nando?
- Ah, é. Parece que ele já foi embora.
A viagem de volta foi menos cansativa, já que agora todos se encontravam dentro de uma mini selva, e os galhos gigantescos atrapalhavam as discussões. De vez em quando, eu olhava pra trás e via o Luzmar com cara de irritado, empurrando alguma folhagem para longe do rosto. Pensei tê-lo visto num acesso repentino e rápido de fúria, destruindo um galho insistente, mas voltei a olhar pra frente e sonhar com minha tão desejada cama...
Só me lembro do casamento do meu primo Tato, em Campinas. Foi um dos episódios mais engraçados que eu já vivenciei. Lembro que ainda namorava o Fabiano, e nós alugamos uma van para nos levar à igreja.
Bom, primeiramente eu devo dizer que venho de uma família absolutamente católica. Mas, contudo, porém, entretanto, as coisas na vida nem sempre se encaixam totalmente no padrão de perfeição que toda família gostaria de viver, e eis que este meu primo ia se casar com uma garota extremamente gente fina da igreja Presbiteriana. Daí você pode começar a imaginar o bico de insatisfação da minha avó-quase-beata. E o casamento seria, portanto, dentro de uma igreja presbiteriana.
Em segundo lugar, estávamos no início de um maldito projeto "rótula" em Campinas, o qual eu não entendi até hoje, mas como faz muito tempo que eu não vou a Campinas, não posso dizer se o tal projeto de inversão de mãos de direção das ruas do centro permanece até hoje ou não, e nem mesmo posso dizer se foi uma realização que facilitou a vida dos campineiros ou não. Só sei que naquela noite este projeto se transformou no segundo objeto do capeta para irritar os calorosos passageiros daquela van a caminho da igreja (o primeiro objeto foi não haver casamento na igreja católica).
Então... seguimos desnorteados, sem rumo, por aquele labirinto de ruas até que pudéssemos achar uma única via que nos desse mão para chegarmos à droga da igreja. Os pneus da van consumiam os ponteiros do relógio, e logo percebemos que assim que a noiva estivesse entrando na igreja, a van chegaria despejando os convidados mais barulhentos que a Terra já viu, e eu logo imaginei a minha santa avó (que Deus a tenha, de verdade), irritada e tinindo igual um guaxininzinho com o rabinho pisoteado, entrando na igreja e praguejando porque a noiva não a esperou. Enquanto tentávamos ajudar o motorista da van (a princípio meio arisco, temendo levar um esporro das tias e avó por não saber o caminho), escutávamos a discussão lá atrás:
- (voz da tia Lourdes) Mas será que a gente chega hoje???
- (voz da minha vó) Ah, eu num sei, viu Lurde. O Nando, o Nando me convidou pra vir com ele. Eu devia ter aceitado.
- (voz da tia Lourdes) Ah, mas porque a senhora não foi com eles, mãe? A senhora que nos atrasou!
- (voz da vó, irritadérrima) EU??? Eu não atrasei ninguém! Olha só: na volta, eu volto com o Nando.
- (voz da tia Lourdes) Ah, foi a senhora, sim. Agora a gente tá aqui, rodando igual capivara, sem sair do lugar. Daqui a pouco a noiva vai chegar...
- (voz de alguém...) É, a noiva vai chegar antes da gente!
- (voz da vó) A noiva não vai entrar não. Ela espera a gente. Eu devia ter vindo com o Nando. Ele me convidou.
- (maior zoeira lá atrás) Aiiiii! Porra, pára de falar!!!
- (voz da tia Maria, quase um sussurro) Ai, meu cabelo.
- (voz da tia Lourdes) Ah, é, sim, a noiva já deve tá chegando lá! E a gente aqui, rodando.
- (voz da vó) Na volta eu venho com o Nando. Eu devia ter vindo com ele.
- (voz do Luzmar) Ai, pessoal, pelo amor de Deus! A gente já tá chegando... (nesse momento percebi a posição geográfica do Luzmar: desconfortavelmente entre minha vó e a tia Lourdes).
- (voz da tia Lourdes) Alá, vira à esquerda, agora! Não deu mão??? Mas era aqui, sim!!!
- (voz da Renata) Kkkkkkkkkk!!!!
- (voz da vó) Se eu tivesse vindo com o Nando, eu já estaria lá. O Nando já deve ter chegado...
- (voz de alguém extremamente estressado com a vó) Put#$@ que pariu, volta então com a porra do Nando, que saco!!!
À essa altura, eu já ria, o Fabiano já ria e até o motorista da van ensaiava um sorriso tímido.
- Bem vindo à minha família - falei, orgulhosa. - Todo domingo é assim.
O casamento transcorreu na maior alegria imaginável (chegamos alguns minutos antes da noiva), a noiva estava linda, o noivo estava emocionado (nunca ninguém tinha visto o Tato emocionado, foi... emocionante), o sermão foi interessante. Ao final da cerimônia, fomos até o salão onde seria realizada a festa. Como em todas as festas, havia vários vasinhos de enfeites em cima das mesas, e vários vasões de plantas nos cantos do salão. Normalmente, quando acaba a festa, alguns convidados nada envergonhados passam a mão nos enfeites de mesa e os levam para casa - não que isso seja errado, no meu próprio casamento fiquei feliz que os levaram embora, sinal que gostaram dos arranjos que eu mesma e minhas irmãs fizemos. O que não esperávamos de maneira nenhuma era chegar à van e perceber que minha tia e minha vó haviam roubado os vasões do salão, cheio de folhagens já altas, e enfiando os tais na van (eles ocupavam o lugar de umas três pessoas, no mínimo. E a pressa com que elas enfiavam os vasos no veículo era assustador. A impressão era que os seguranças do salão de festas estavam com rádios atrás dos suspeitos de terem sequestrado as plantas.
- Vai, puxa o vaso...
- Empurra que cabe.
- Isso, põe lá no canto.
- Ô Luzmar, dá pra você ir um pouco pra lá pra caber o vaso???
- Mas que droga, mãe! Tira essa planta da minha cara!
- Ô, saco, será que dá pra gente ir embora?
- Put#@$ que pariu, vocês roubaram os vasos do salão???
- Ninguém roubou nada, isso aqui é pros convidados...
- Que convidado nem aqui nem na China... Os vasos para os convidados são esses daqui, ó, pequenos. Os que estavam em cima da mesa.
- Ai, eu não quero nem ver. Eu não vi nada, não peguei em nada, não tem minha impressão digital aí.
- Mas dá pra vocês pararem com isso e me ajudarem a colocar esses vasos aí?
- Ei, dá licença que eu quero sentar.
- Ué, vó! A senhora não falou tanto que ia com o Nando?
- Ah, é. Parece que ele já foi embora.
A viagem de volta foi menos cansativa, já que agora todos se encontravam dentro de uma mini selva, e os galhos gigantescos atrapalhavam as discussões. De vez em quando, eu olhava pra trás e via o Luzmar com cara de irritado, empurrando alguma folhagem para longe do rosto. Pensei tê-lo visto num acesso repentino e rápido de fúria, destruindo um galho insistente, mas voltei a olhar pra frente e sonhar com minha tão desejada cama...
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Não me lembro de ter convidado a vó...
Nando
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